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RESENHA DE DVD: RENATO RUSSO – ENTREVISTAS

Existem muitas maneiras de se contar histórias, sobretudo no mundo do rock. A mais legal delas é quando um dos envolvidos conta como tudo aconteceu, e Renato Russo sempre foi um sujeito de verve afiada e bom papo. Mais do que uma reles entrevista concedida a uma emissora de TV, como o título sugere, o material reunido nesse DVD é a história do rock criado em Brasília na década de 80 e também a do seu maior representante, a Legião Urbana, contada por quem viveu tudo, tim tim por tim tim.

A matéria encomendada pela tal emissora para o programa “Passado, Presente e Futuro”, no entanto, não tinha esse objetivo, mas o de flagrar a Legião logo após o lançamento do brilhante álbum “O Descobrimento do Brasil”, de 1993. Tanto que Jorge Espírito Santo, o jornalista que fazia a perguntas “em off”, já que a matéria era aquela do tipo que só o entrevistado aparece na tela falando, no afã de cumprir bem seu ofício, cortava inconvenientemente a narrativa minuciosa que Renato destrinchava. Seguramente a versão editava que foi ao ar (omitida aqui) não soa tão rica quanto essa, praticamente a íntegra da conversa, quase um monólogo de Renato Russo.

A tal riqueza de detalhes inclui a descrição detalhada da formação de bandas seminais para o rock brasiliense como Aborto Elétrico, Blitx 64 e Escola de Escândalos, entre outras, e de pontos de encontro que garantiam a efervescência rock’n’roll da juventude da época. Reconhece a formação classemediana dos filhos de diplomatas que praticamente fundaram o punk de Brasília através do acesso aos discos numa rapidez impressionante em tempos pré-videocassete. “Naquela época ainda não existia nem o hardcore”, diz Renato, reivindicando para a legião a pecha de “banda pesada”. Renato se mostra ligado do rock de Brasília dos tempos em que a entrevista foi feita, em maio de 1994, ao citar bandas como Little Quail & The Mad Birds, Raimundos e Oz.

Quanto à Legião, o poeta Renato Russo se mostra surpreso pelo fato de suas letras intrincadas terem caído (e como) no gosto popular, mesmo desaprovadas por diretores artísticos da gravadora, que indicavam que a banda deveria repetir a fórmula punk do álbum de estréia, e tentaram a todo custo vetar, por exemplo, “Daniel na Cova dos Leões”, porque a música não tinha um refrão. Mesmo dizendo que prefere não falar sobre o significado das músicas, para que cada fã descubra um, Renato não se exime de reafirmar que a queridinha “Pais e Filhos” é pesada e sobre suicídio, e que “Perfeição” é uma grandiloqüente canção de despedida. E se defende, ao admitir que “Tempo Perdido” só ficou parecida com os Smiths (apontada como banda referência para a Legião) depois do arranjo final que entrou em “Dois”, já que foi composta antes de Renato começar a ouvir a troupe de Morrissey. Para ele, as duas bandas que mostraram o que ele queria fazer na Legião foram PIL e Gang Of Four. E que a época em que ele se denominava Trovador Solitário, vem de Billy Brag e Paul Weller.

A análise da carreira da Legião, na visão de Renato, vem sempre atrelada ao cenário político brasileiro, o que reflete no conceito estético dos discos da Legião. Não raro ele cita as “Diretas Já”, a “Nova República” e a “Era Collor” como referências para direções que ele tomou com a banda. Mas nas entrevistas bônus, a coisa deixa um pouco a Legião e o rock de lado e mostrar o lado pessoal de Renato Russo. Na feita para o jornalístico (sim, já houve jornalismo na MTV) “MTV No Ar”, em março de 1994, ele fala basicamente de seu primeiro álbum solo, o piegas e ao mesmo tempo panfletário “The Stonewall Celebration Concert”, voltado para a causa gay. Renato foi tratado com desdém pela emissora, que deve ter enviado uma estagiária, cujo nome foi omitido, para entrevistá-lo. Mas a pior parte está em “A Entrevista”, quando Zeca Camargo leva o papo para um lado pessoal pra lá de esquisitão. Eu, hein…

Considerando a hora e meia de “Passado, Presente e Futuro”, o DVD vale pelo conteúdo histórico, um verdadeiro resgate de como o rock brasileiro começou a se estabelecer concomitantemente ao fim da ditadura militar, e justamente na Capital Federal. Não deixe de assistir.

1 Comment

  1. Me desculpe mas a entrevista feita por Zeca Camargo é uma aula de como fazer um entrevistado se abrir e bater um papo quase como amigo da câmera. Em determinado momento é notório que Renato praticamente esquece que aquilo será visto por milhões e soa tão honesto e direto como poucas vezes foi. No demais sua resenha me agrada.

    Abraço

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