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MATÉRIA ESPECIAL: AT THE DRIVE IN, SPARTA E MARS VOLTA. CONHEÇA (E BAIXE)!

Por Dante Augusto – Músico do Sinks e Calistoga

Primeiramente vou introduzir um pouco o At The Drive-In com um pequeno histórico da banda. Se trata de uma banda de El Paso, cidade americana do estado do Texas que faz fronteira com o México. Só por essa descrição já da pra sentir a tensão que é viver e crescer nessa cidade, ainda mais quando se é um jovem roqueiro, estrangeiro ou filho de estrangeiros. Pois bem, o At The Drive-In era tudo aquilo que os cowboys texanos, cristãos brancos, racionários e racistas não gostavam de ver pelas ruas e escolas de El Paso.

A banda era composta por Cedric Bixler-Zavala nos vocais (filho de mexicanos que cruzaram a fronteira), Omar Rodrigez-Lopez na guitarra e vocais (filho de porto riquenhos e nascido em Porto Rico), Paul Hinojos-Gonzales no Baixo (filho de mexicanos), Tony Hajjar na bateria (nascido e criado em Beirute, Líbano) e finalmente Jim Ward na guitarra, teclado e vocais (texano branco filho de texanos) . Tensão era o que não faltava no dia a dia e no desenvolvimento da banda e isso tudo é muito claro de se ver no som, nas letras e nas entrevistas da banda onde os membros falavam de suas vivências em El Paso, deixando bem claras as influências do passado, não dando para destinguir se eles amavam ou odiavam a cidade.

Relationship of Command foi o terceiro e último álbum da finada banda, lançado no ano 2000, gravado no estúdio-rancho Índigo em Malibu (California) no começo do ano 2000, produzido por Ross Robinson e mixado por Andy Wallace. Contém vocais adicionais de ninguém menos que Iggy Pop nas faixas “Rolodex Propaganda” e “Enfilade“. O disco traz uma sonoridade crua, agressiva e aguda que as vezes incomoda, sem o peso grave de guitarras barítonas em baixas afinações com as quais o produtor Ross Robinson estava acostumado a trabalhar.

Para quem não sabe Ross é famoso por ter produzido os primeiros álbuns de bandas como Korn, Deftones e Slipknot e é creditado como um dos responsáveis pela onda new metal que fez grande sucesso no final dos anos 90 e começo dos 2000, justamente a época em que o At The Drive-In atingiu seu ápice com o Relatoinship of Command. Bem por isso que a banda era celebrada como o diferencial, e muitas vezes a revolução por aqueles cansados de ver bandas seguindo a fórmula new metal pipocando por todo canto. Não é difícil folhear revistas da época, gringas e conceituadas como a Kerrang e encontrar profecias do tipo “ai vem o novo Nirvana”.

O disco já começa diferente de tudo que já se ouviu com “Arcarsenal” agressiva e rápida com pitadas de salsa (ritmo citado como uma das maiores influencia do guitarrista porto-riquenho Omar Rodriguez-Lopez) com vocais extremamente agudos ora melodiosos ora gritados e esganiçados de Cedric trazendo uma energia equiparável somente as apresentações ao vivo da banda, verdadeiro pandemônio pelo modo como os integrantes dançavam, corriam, pulavam e balançavam seus Black Powers no melhor estilo MC5 como loucos de um lado para outro do palco como se estivessem possuídos por algum demônio do folclore mexicano, pouco preocupados se iriam acertar as notas e acordes, entrar nos tempos e tons certos dos vocais ou até mesmo se iriam terminar o show se ferindo ou quebrando algum osso.

O disco vai seguindo o mesmo clima rápido, agressivo, marcante, ora melódico ora gritado (fórmula batida porém feita de um modo nunca ouvido antes até então), com doses de experimentalismo, ritmos latinos, progressões de acordes, efeitos e solos de guitarras que podem ser chamados de qualquer coisa menos de convencionais.

Passando pela faixa de maior sucesso do disco “One Armed Scissor” é impossível não cantar junto o “cut away cut away” do refrão, a música traz mais uma vez tempos e progressões de acordes loucos transformando tudo num belo caos de dissonâncias e melodias cheias de sentimento. O clima muda para algo soturno e cheio de tristeza em “Invalid Litter Dept.” música composta sobre o drama que várias mulheres de El Paso passam a ser, pelo desemprego, forçadas a trabalhar de madrugada em fábricas têxteis chamadas de “Maquiladoras” no lado mexicano da fronteira e simplesmente somem sendo encontradas mortas e estupradas vários dias depois no meio do deserto sem que nenhuma atitude seja tomada pela polícia. Um alerta ao mundo sobre como é viver numa fronteira e morar numa terra de ninguém. Cedric declama a letra nos versos da música e canta uma melodia no refrão que diz “dançando sobre as cinzas dos corpos” interpretando e passando toda a tristeza que ele mesmo sentiu ao perder amigas e familiares dessa forma brutal. A música segue num crescente e o que era tristeza vira ódio e desespero com Cedric disparando algo que chamo de “gritos de quem não sabe gritar” pelo descaso com a sonoridade emitida por ele. A música ainda conta uma belo arranjo de piano composto e executado por Jim Ward, um dos principais compositores da banda, que foi pouco notado talvez pela falta de um black power, talvez pelo seu modo mais quieto de se comportar no palco ou até mesmo por ser o único branco e cem por cento americano da banda numa espécie de racismo reverso.

Jim canta vários trechos nas músicas desse disco e muitas vezes é confundido com Cedric por também cantar nas regiões mais agudas do campo vocal e ter um timbre bem parecido com o do vocalista principal da banda. Nas guitarras Jim é responsável pelas bases dissonantes e dedilhados mais melódicos enquanto Omar luta incansavelmente contra a guitarra em solos desesperadamente agressivos e propositalmente cheios de notas fora do campo harmônico como também em arranjos carregados com os mais variados efeitos de guitarra combinados.

O álbum conta ainda com outras faixas clássicas que seguem mais ou menos as descrições já citadas e pode ser encontrado nas listas de álbuns mais clássicos de todos os tempos de revistas especializadas em rock pelo mundo. Relationship of Command trouxe ao At The Drive-In fama e reconhecimento mundial e parecia preceder um álbum ainda melhor que possuísse um apelo comercial maior e os levasse ao estrelato definitivo tal qual o Nirvana, mas o hype excessivo parecia não agradar os membros da banda que cresceram influenciados pelo pós-hardcore de Fugazi, Rites of Spring e todos os idéias punk de igualdade, não violência e rejeição ao mainstream tão propagados pelas bandas do Revolution Summer de Washington.

Eles queriam o suficiente apenas para poderem sobreviver e dar continuidade sua música, tudo isso somado s divergências sobre o rumo musical da banda (Omar e Cedric queriam abraçar de vez o experimentalismo, os improvisos, o crescimento da técnica e da complexidade musical e o resto da banda ainda queria manter uma pegada rock mais convencional combinada a experimentalismos mais dosados como vinha sendo), culminaram no fim da mesma e no aparecimento quase que imediato de outros dois ótimos grupos: o Mars Volta com Cedric, Omar, alguns músicos contratados e o primo de Jim Ward, Jeremy Ward e o Sparta com Jim, Tony e Paul.

Pouco tempo depois o primo de Jim, Jeremy que acabara de formar o Mars Volta morreria de overdose de heroína depois de ter adquirido o vício junto com Omar e Cedric, o que afastou de vez as chances do grupo se reunir, selando de vez o fim do At The Drive-In. As duas bandas seguem até hoje, o Sparta com a parte mais convencional sem deixar de ser criativa e o Mars Volta totalmente progressivo e experimental com álbuns conceituais e músicas de 12 minutos.

Para baixar:

AT THE DRIVE IN Relationship of Command

MARS VOLTA – Amputechture

SPARTA – Threes

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