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MARCOS BRAGATTO (RJ): A REDESCOBERTA DO PRAZER DE PEGAR UM NOVO DISCO, OUVIR SE EMOCIONAR

Com a volta o Metallica, e dessa forma espetacular, o beco sem saída em que se meteu o thrash metal acaba de ser despachado pelos ares, abrindo um vácuo a ser preenchido pela cena metálica mundo afora

Meus amigos, o que é natureza. Coisas que pensávamos que nunca mais ia acontecer, súbito, acontecem. Digo pensávamos já açambarcando o caro leitor comigo, na certeza de que eu e ele dividimos, juntos, essa surpresa. Ou, por outra, porque nas portas de shows, beiras de palco, mesas e balcões de bares, quase todos os lugares, o assunto é sempre comentado, sempre tema de discussão, para o bem ou para o mal. E esse é, no fim das contas, o motivo que me fez escrever religiosamente todas as semanas desde o bom e velho Pomba decidiu me tirar do ostracismo virtual.

Quantas vezes não escutamos – sobretudo nos anos pós-download – um amigo nosso bradar aos quatro ventos: “há quanto tempo eu não me surpreendo com um disco novo!” E começam todos a lembrar daquele momento único de ir numa loja, comprar um disco, chegar em casa, colocar pra ouvir e descobrir, de cara, que se trata de um discaço, algo resplandecente, rejuvenescedor. Digam, meus caros leitores, aposto que cada um de vocês tem um exemplo de um disco de uma banda que conheceu dessa forma. Pois eu tenho vários, mas até aí seria só papo de saudosista, caso não tivesse eu me deparado com essa situação, anteontem, de novo.

Não, não é que eu tenha ido a uma loja comprar um disco – nem mesmo este velho homem da imprensa faz mais isso. Quando compro um CD, é através de promoções em sites, ou em uma porta de shows dessas da vida, caso dos independentes. Mas, admito, tenho colocado em prática um projeto traçado recentemente para turbinar este Rock em Geral. Disse projeto pra tirar onda, mas o fato é que decidi ficar de olho na web para baixar lançamentos antes que eles se materializem, para, logo em seguida, postar resenhas e primeira mão, antes de a sacolinha da gravadora criar pernas e chegar aqui em casa. E foi assim que pude ter, já nos tempos modernos, a satisfação de me deparar, frente a frente, com um discaço daqueles de virar história em porta de show nos anos seguintes.

O leitor mais atento, aquele que visita outras seções deste site, e não só essa coluna, já deve ter percebido que estou falando de “Death Magnetic”, o novo do Metallica. Fiquei de olho aqui e acolá na web e baixei o CD inteiro rapidinho, e em menos de 24 horas tava lá o danado dissecado na seção Som na Caixa. Depois fiquei sabendo que um lojista lá na França recebeu os discos que só deveria colocar à venda no dia 12, a data oficial de lançamento, mas o fez antes, e dali partiu o tal vazamento. Lindo esses tempos modernos, não? Ao saber do ocorrido, nem o batera Lars Ulrich esquentou a cabeça, ele que se engravatou todo para ir a Corte americana processar fãs que utilizavam o Napster, na época, para baixar músicas do Metallica.

Falo tanto que não digo o mas importante. “Death Magnetic” é um discaço. Não é algo revivalista, mas a atualização do thrash metal feita simplesmente por quem o criou, e numa fase inspiradíssima. Poucas vezes uma banda conseguiu compor e arranjar tantas músicas boas para um só álbum. É fato que, em toda a sua carreira, o Metallica tem músicas sensacionais, vindas de fases diversas, mas devo admitir que não considero nenhum dos discos da banda um disco perfeito, só com músicas boas. Há sempre, em um ou outro momento, algo que desanda, e digo isso incluindo, para reforçar, as fases dos três ótimos primeiros álbuns, a dos exageros de “…And Justice For All”, e a do chamado “Black Album”. Pois – ainda é cedo – estou prestes a concluir que “Death Magnetic” é – vejam vocês – o melhor disco da carreira do Metallica. Mas atenção: isso não é uma resenha.

Mais ainda. Nesse momento, o Metallica simplesmente reabre a temporada thrash e todo o mundo. Explico. Com a decadência global do thrash metal, os ícones do gênero desandaram a buscar “saídas” para o som que inventaram, trilhando caminhos nem sempre os mais agradáveis. Isso se falar nas bandas que interromperam suas atividades. Sobraram os grupos de segundo escalão, que, sob o pretexto de serem fiéis ao estilo, ao “verdadeiro thrash metal”, deixaram de lado a criatividade na hora de compor as músicas, e, sem música boa não há segmento do rock que sobreviva. Agora, com a volta o Metallica, e dessa forma espetacular, o beco sem saída em que se meteu o thrash metal acaba de ser despachado pelos ares, abrindo um vácuo a ser preenchido pela cena metálica mundo afora. Ou, por outra, o Metallica volta a pautar – e com muita propriedade – a música pesada e todo o mundo. E isso, para uma banda com mais de 20 anos de estrada, convenhamos, é algo extraordinário. E repito: “Death Magnetic” é, hoje, a vanguarda da música pesada mundial.

Diferentemente do Antropólogo, eu conheço muito bem o José Flávio Junior. Pois eis que a Folha de S. Paulo o mandou lá para Londres entrevistar o guitarrista Kirk Hammet, a despeito do lançamento de “Death Magnetic”. Quando a entrevista foi feita, JFJ só deve ter ouvido as três músicas que o site oficial foi liberando num conta-gotas, e, mesmo assim, não é que ele fez uma matéria e tanto? Digo isso não porque duvide da capacidade do rapaz – muito ao contrário -, mas porque, via de regra, jornalistas de grandes jornais têm uma inabilidade contumaz ao tratar do assunto heavy metal. Consideram o metal um gênero menor e ignoram seus contornos. José Flávio pode até ser um deles, mas, para fazer essa matéria que a Folha publicou na última segunda, pesquisou, leu resenhas de publicações estrangeiras e deu show na concorrência estéril. Só fiquei bravo que ele me roubou a citação ao U2, mas paciência.

Falei no Antropólogo e, acreditem, outro dia ouvi (ou li) o chamarem de “etnomusicólogo”, no que me refestelei em incontinentes gargalhadas. Pode uma coisa dessas? E, ao falar dele, me vem à cabeça a retórica de Caetano, na qual, cedo ou tarde, também vou meter minha colher. Mas hoje, não. Porque macular com esses malas uma coluna que fala sobre a redescoberta do prazer de pegar um disco, ouvir e se emocionar com ele, e justamente um disco do Metallica, não teria o menor sentido.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

1 Comment

  1. Ainda nao consegui parar de ouvir o DM… Os meus Beatles lançaram um novo Revolver, um novo Sgt. Peppers… Tem hora que dá vontade de gritar “parem de ser tão geniais!!!”. Trujillo deu um gás impressionante na banda. O som tá cheião, a batera de Ulrich tá com um timbrasso (caixa sem ser latão, bumbo forte e com a dose certa de kick… chimbal pouco processado, tons vivos), Kirk, pro meu gosto, às vezes frita demais (descarregou o que deveria ter solado em St Anger no DM, aí em alguns momentos exagerou) mas ao mesmo tempo usou novas escalas e coisas mais experimentais em vários momentos. As guitarras tão duplando como há muito não via (mais que no Black Album, e com mais classe que no progressivo que no …justice). O que mais impressiona é que DM nao cheira a naftalina. Eu to realmente emocionado, a banda que me fez começar a tocar guitarra lançou um clássico… hj de manhã vindo pro trampo eu não acreditei que tem um cd inteiro de pedras novas do metallica pra ouvir. Sábado de manhã, se já tiver chegado nas lojas daqui de Recife, eu já terei meu cd original. Esse aí eu n abro mão nem a pau!

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