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MARCOS BRAGATTO (RJ): POEIRA ZINE FAZ JORNALISMO ROCK COMO ELE DEVE SER

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Conteúdo: Rock em Geral

Meus amigos, recordar é viver. Foi pensando assim que, ao receber um e-mail de divulgação lançando uma nova edição do Poeira Zine, fiquei embasbacado ao ver, estampado na capa, o excepcional Gov’t Mule. Não sei se o nome lhes é familiar, caros leitores. Mas a mim, sim. Acontece que, por conta do destino, me vi separado do grupo que descobri pelas andanças do rock, tocando ao vivo, em pleno Canecão, a casa da música popular brasileira, no longínquo ano de 1996. Disse que me vi separado e repito: nunca mais tinha ouvido falar dessa extraordinária banda cujas fotos do show ainda estão aqui os meus alfarrábios . Ou, por outra, só li uma nota quando o baixista original faleceu, em 2002. Pensei que, depois disso, o Gov’t Mule tinha ido para o saco. Pois não foi.

Falei do Poeira Zine e não sei se vocês o conhecem. Tem nome de zine, mas é, na verdade, uma revista. Digo isso porque as matérias são escritas, diagramadas, impressas em gráfica e encadernadas, em “off-set”, com capa em papel couchê e tudo. Por isso chamo de revista, embora seja batizado como zine. Curioso que, na década de 90, a Rock Press tinha mais ou menos o mesmo formato e era uma revista, embora muito chamassem a publicação (as vezes com conotação pejorativa) de zine. Isso, hoje, já não tem a menor importância. A Rock Press, como boa parte das publicações impressas, virou site, e o Poeira Zine reina.

Conheci o Poeira Zine há uns dois anos, quando o editor Bento Araújo gentilmente me enviou um exemplar, com o The Who na capa. Na época eu era um dos colaboradores da extinta Bizz, e a revista vivia uma “crise de capa”. Aliás, um dos motivos de a nova Bizz ter fracassado certamente foi a falta de habilidade na escolha das capas de cada edição, mas isso é outra história. Ocorre que, um subeditor da revista me disse, na época, que o The Who, lançando um álbum de inéditas depois de setecentos anos, só não foi capa porque eles não teriam conseguido uma entrevista com a banda. Eis que, ao abrir o Poeira Zine, estava lá um entrevistão com ninguém menos que Pete Townshend, o dono da boca. Ponto para bento Araújo, que, do quaro de sua casa, furou a Editora Abril.

Dessa vez, quando pedi para comprar a tal edição do Poeira com o Gov’t Mule na capa, Bento fez questão de me enviar, gratuitamente, logo dois exemplares, esse e o anterior, com uma geral na cena pré-punk de Chicago. Com mais atenção, verifiquei que Bento é quem faz praticamente tudo na revista (pra mim é – repito – revista), inclusive diagramação. Li também, no editorial, praticamente um pedido de desculpas pelo fato de a matéria de capa ser com uma banda “nova”, isto é, criada nos anos 90, quando a publicação foi criada para só mostrar os clássicos das antigas pra valer. Ou, nas palavras de Bento, “trazer de volta o espírito do jornalismo ‘rocker’ dos anos 70”. E olha que ele próprio, Bento Araújo, nasceu em 1976! É mole?

Este velho homem da imprensa rock que vos escreve deve confessar que não acompanhou a imprensa o que o editor citou no editorial. Mas, depois de ler, por questões pessoais, a matéria de capa, e quase toda a edição 21 de cabo a rabo, entendi o que ele quis dizer. Que informação legal se lê em revista especializada, com matérias multi-ganchos grandes e cheias de boxes explicativos – na do Gov’t Mule foram 12 páginas, quatro boxes e duas entrevistas exclusivas. Sim, eu sei que boa parte do conteúdo impresso naquelas páginas – sobretudo o biográfico – seguramente pode ser encontrado na internet, e ou próprio já teria acesso a ele se tivesse me disposto a procuram com um pá de cliques. Acontece que assim não é legal. Legal é ver a revista, como vi num e-mail, adquirir e ler. Eu mesmo poderia, ao saber que o Gov’t Mule estava vivo, ter procurado e encontrado notícias na web e saber de tudo antes de o correio chegar aqui na portaria do prédio. Preferi, no entanto, a versão impressa em revista – com um bom texto, diga-se – porque é assim que deve ser.

Falei de matéria legais como a do Gov’t Mule, publicada no Poeira Zine, justamente pra fazer a conexão que esbocei ali em cima, com Rock Press. Porque eu mesmo fiz matérias desse tipo para a finada publicação. Lembro de algumas, com Black Sabbath, Korn, Raimundos e The Police. Na época, fui advertido pelo meu amigo, o inefável Dr. Rodivaldo Traça, que chamou a empreitada de “jornalismo Google”. Como se tudo fosse copiado da internet para o papel. Ora, meus amigos, tanto eu como o Bento Araújo, a música e o rock em si, antecedemos à internet em muitos anos, e uma coisa é o pensamento, humano; outra é uma ferramenta cibernética somente útil nas mãos de gente como a gente – humanos.

Quando digo que jornalismo rock deve ser impresso, não me refiro apenas ao classic rock desempoeirado pelo Poeira Zine, mas de todo o rock. Pensem bem. Se Bento acha o Gov’t Mule novo, não é exagero dizer que o Oasis é um medalhão. Ou o que Police acabou de renascer das cinzas como um dinossauro, assim como o Pixies um ano antes. Todas essas bandas, só citadas a título de ilustração, poderiam ganhar matérias bem elaboradas como a do Gov’t Mule, numa publicação de rock impressa. O que Bento chama de “espírito do jornalismo ‘rocker’ dos anos 70”, nada mais é do que o jornalismo rock deve ser. Vejam: não é o rock que deve se adaptar à internet; esta é que tem que se enquadrar ao rock.

É de se salientar, entretanto, que enquanto publicações impressas de renome em todo o mundo, como o semanário New Musical Express, ícone da modernidade, agonizam e priorizam as versões virtuais, lá fora, na mesma Inglaterra, a revista Classic Rock completa dez anos e vai muito bem, obrigado. Está até distribuindo estatuetas para ícones do gênero, numa premiação anual que na edição de 2008 transformou Ozzy Osbourne oficialmente em lenda viva do rock. Numa visão intra-muros, aqui no Brasil, afora a “bancada pela fama” Rolling Stone, todas as outras impressas sucumbiram à internet, exceto o grande Poeira Zine e a Roadie Crew, que nasceu metal e vem adaptando o conteúdo para – advinhem – o classic rock. Seria essa uma tendência? O tempo dirá.

Como sempre digo, é tanta coisa no menu que eu não sei o que comer. Queria falar de Gov’t Mule e de imprensa rock de verdade. Que o Poeira Zine é um espetáculo e que o rock antecede à internet. Pois acabei falando mais ou menos um pouco de tudo, porque, como diz o cancioneiro, não tenho tempo a perder. Preciso ler a matéria sobre o California Jam e começar baixar logo os discos e shows do Gov’t Mule que o Poeira indicou!

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

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