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CLIPPING: ANA MORENA (DOSOL) FALA PRO INTERNETCIDADE

Elisa Elsie

FONTE: WWW.INTERNETCIDADE.WORDPRESS.COM

POR PAULO CELESTINO

Uma verdadeira incubadora de bandas de rock. Assim podemos definir o “conglomerado” DoSol. Espécie de casal 20 do rock natalense, Ana Morena e Anderson “Risuenho” mantêm estúdio, portal na Internet, Tv, produtora, festival e bar, agora transformado em Centro Cultural DoSol. Projeto aprovado na lei municipal de incentivo à cultura Djalma Maranhão, a grande missão no momento é conseguir patrocínio para manter a casa funcionando como espaço para apresentação das bandas, oferecendo ainda oficinas práticas e teóricas de música e também exibir filmes e documentários.

Ninguém melhor do que eles dois para conversar sobre a “fraternal” cena rock natalense e o que ela tem a ver com a identidade cultural da cidade. Morena não alivia e nem se intimida de dizer sem culpas freudianas que os “meninos” natalenses são uns “amamãezados”. Palavra inventada, a questão é simples: parecem depender de alguém para tudo. Também não poupa os produtores, que “têm a mania de ficar esperando sentado”. E quem quase cansa de esperar, nem um pouco sentado, foram eles dois. A alternativa do Centro Cultural vem para salvar o espaço do fechamento.

Anderson e Ana Morena, certamente, já guardam um capítulo especial na história do rock natalense. São dois empreendedores da música. Hoje, estão envolvidos na produção de 10 bandas no selo DoSol. Uma história que começou há 10 anos em shows dele na extinta Ravengar e, dela, no Memória Rom. Uma dos primeiros projetos em conjunto foi a banda Officina que agitou com pop rock muitas das noites natalenses. É inegável dizer que ajudaram a popularizar o ritmo não tão querido pelos jovens natalenses naquela época. O selo e estúdio já existem há sete anos e o bar, há mais de 4 anos.

Daquele tempo até aqui, a coisa mudou para melhor, garantem. Pululam diversas bandas fazendo o seu próprio som. Há uma produção de “vanguarda”, com platéia fixa e casa lotada. Mas também não subestimam o eterno retorno do ciclo do vai e vem de bandas- público – lugares para tocar. Destaque ainda para o fato de que uma boa parte das bandas locais cantam em inglês. É uma tendência, não uma necessidade, dizem. Mas, no que depender do esforço DoSol, Natal vai retomando os ares da velha Londres nordestina. E quem sabe um dia – embora eles não contem nem um pouco com isso-, a cidade ainda dê uma de Liverpool.

Internetcidade_Como surgiu a idéia do Centro Cultural DoSol?
Ana Morena_Sempre achamos o espaço DoSol bacana, mas subaproveitado. Um lugar daquele tamanho para ser usado apenas no fim de semana, é um desperdício. O principal objetivo do DoSol foi formar platéia para uma música de vanguarda. E, sinceramente, conseguimos. O público é flutuante, com períodos mais cheios e mais vazios, mas já existe. Porém, sem patrocínio fica inviável mantê-lo. Então, tivemos a informação de que o projeto poderia ser inscrito na lei de incentivo e acendeu uma luz no fim do túnel.

IC_ Qual é o objetivo agora que a platéia está formada?
Morena_Agora que a platéia já está lá, o que falta é gente que faça a roda girar junto conosco. O que precisamos é formar produtores, bandas, músicos, pessoas empreendedoras da música. A ampliação das atividades vem para ajudar a suprir essa necessidade.

IC_Vocês tinham uma proposta de uma certa autogestão para tocar o lugar. Há dificuldades em delegar responsabilidades e fazer a coisa andar sozinha? De onde você acha que vem essa dificuldade?
Morena_A idéia era criar o lugar com uma estrutura bacana, fazer duas festas nossas por mês e deixar que o resto da programação fosse conduzida por outros agentes culturais. Mas a coisa não rolou assim, justamente porque a maioria das pessoas envolvidas, como os músicos e produtores, ainda têm aquela mania de ficar sentado esperando ser chamado para tocar, chegar na hora e tudo estar pronto. São muito acomodados. Não passam um email divulgando pros amigos. Queremos mudar isso, fazendo com que as bandas produzam os seus próprios “rolés”, façam os seus lançamentos, etc. Mas tem de fazer bem feito. Coisa “malamanhada” dá 10 pessoas e isso não é legal pra ninguém.

IC_Vale a pena a luta pelo Centro Cultural?
Morena_Sim. Às vezes eu quero mandar tudo pro espaço quando sinto que não dão valor à oportunidade. Mas ainda bem que isso acontece pouco. Sou de outra época, quando os locais de shows eram “tosquérrimos”, o som era uma tristeza e éramos felizes por ainda conseguir ir ou tocar num show uma vez por mês, e olhe lá. Eu luto pelo local, mas o Anderson luta muito mais. Ele é louco pelo espaço porque ele viveu bem os anos 90 e sabe como é difícil ter um lugar tão legal pra tocar e fazer festa voltada pro cenário independente. Eu já pensei em fechar várias vezes. Ele só pensou uma única vez e foi nesse ano.

Sem culpas freudianas: os “meninos” são uns “amamãezados”, diz Morena. A tradução é simples: parecem depender de alguém para tudo. Também não poupa os produtores, que “têm a mania de ficar esperando sentado”. Quem quase cansam de esperar, nem um pouco sentados, foram eles dois.

IC_Qual é a grande busca dessas bandas hoje?
Morena_A maioria quer tocar, gravar e ser roqueiro no intervalo do trabalho, da faculdade e da namorada. A minoria quer trabalhar e viver do rock.

IC_Isso é bom ou ruim?
Morena_Não é bom nem ruim, é apenas um fato. Cada um faz o que está a fim e do jeito que convém e dá certo. Só não quero ouvir reclamação de quem não consegue uma projeção com a sua banda e diz que um fulano de outro grupo toca em todo festival, faz shows em outras cidades e tira um som melhor porque faz parte da “panelinha”. Duas coisas que não tenho paciência: o sujeito que não se toca que fulano rala “pra caramba” para conseguir tudo isso e essa conversa anos 80 de panelinha. “Pelamordedeus”!

IC_Com você avalia a cena musical natalense? O que você observa da atual produção das bandas?
Morena_
Muitas bandas boas, bem equipadas (instrumentos, amplificadores, pedais, etc), fazendo boas gravações e arrumando tempo livre pra poder tocar fora. Tem épocas com muito mais bandas em ação. Mas acho melhor ter menos bandas com mais qualidade do que uma “ruma” mais ou menos.

IC_O que essa cena tem de especial?
Morena_De especial, as bandas estão preocupadas em fazer um som bacana, preocupam-se com a qualidade do show, em ter bons equipamentos, estilo, uma boa performance e, o mais importante, todas as bandas se ajudam e se preocupam umas com as outras, emprestam equipamentos, instrumentos, dão uma força entre elas. É bacana de ver, temos uma cena quase fraternal.

IC_E o que falta?
Morena_
Falta a iniciativa. As bandas são muito enroladas. Esses meninos são muito “amamãezados”. Com 20 anos, eu já fazia show, tocava, desenrolava, conversava e divulgava o trabalho numa época em que a internet não era essas “coca-cola” toda. Claro que tem gente que faz acontecer, mas é uma em um milhão. O resto fica esperando que façamos por eles. Ficam numa de “poxa, não sei fazer”. Só se aprende a fazer fazendo, oras. Mas precisa querer fazer direito. Quando vão fazer um show fora da cidade ou tocar num festival vira uma novela, complexa e cheia de drama. Coisas simples ganham uma dimensão gigante (risos). Mas é isso, uma coisa de cada vez. Não se pode ter tudo!

IC_É meio como perguntar ao pai qual filho ele gosta mais, mas quais bandas você destaca no momento?
Morena_Calistoga, The Sinks, Brand New Hate, Poetas Elétricos e a minha Camarones Orquestra Guitarrística. Essas são as minhas bandas preferidas que estão mais agilizadas no momento.

IC_Você já tem alguma idéia de qual caminho o rock natalense está tomando?
Morena_Caminho de sempre: circular com altos e baixos eternamente. Shows, platéia, novas bandas, mais shows, mais platéia, novas bandas, menos platéia, menos shows, mais platéia, mais bandas, mais shows…

Louco pelo local: Ana pensou várias vezes em fechar o espaço. Anderson, uma única vez.

IC_É necessário projetar alguém além dos muros para construir uma identidade?
Morena_Identidade de uma cidade sem identidade é essa que temos no momento. E que vai mudar no futuro. Se projetarmos alguém pra fora, vai ser alguém com identidade global, como todas as bandas que temos aqui. Não existe um som rock do RN ou de Natal. Existem sim boas bandas de vários estilos. Hoje estamos com mais bandas cantando em inglês, fazendo um rock mais duro misturado com punk rock. Mas se, por exemplo, o The Sinks for projetado nacionalmente, a identidade de Natal vai ser rock duro/punk rock, Nirvana? Acho que não. Será uma banda de Natal, mas não acredito que ela, ou qualquer outra, irá definir uma identidade musical pra cidade.

IC_Aquela velha pergunta… precisa cantar em inglês?
Morena_Não, não… é uma tendência. Antes, por algum tempo, uma banda local que cantava inglês era execrada. Agora elas são uma “moda”. Acho besteira essa coisa de “precisa de”. Não é preciso nada. Você faz o que está a fim de fazer e se o público estiver a fim de ouvir, ótimo! Quando força a barra, normalmente não funciona. Agora se quer fazer uma carreira no exterior, cantar em inglês é fundamental. Eu ainda prefiro bandas que cantem em português, mas as minhas preferidas locais, quase todas cantam em inglês. O que importa mesmo é ser bom!

IC_Qual a sua expectativa hoje com o trabalho no DoSol?
Morena_Se conseguirmos manter o DoSol com patrocínio, continuar a fazer o Festival com a mesma proposta de valorizar a música de vanguarda independente, manter o estúdio, os projetos de edição de vídeo e o portal Dosol sempre com novidades e, o mais importante, conseguir viver disso, seremos as pessoas mais felizes da Terra.

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