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BRUNO NOGUEIRA (PE): A CULTURA DA TROCA – PARTE QUATRO

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Entender o público – ou até mesmo se posicionar entre ele – parece uma das tarefas mais difíceis de toda indústria de entretenimento hoje. Acostumada a simplesmente ditar e moldar a opinião através de canais fortes e bem estabelecidos, quando o próprio mercado dispersou as pessoas em centenas de opções por diversão, seus agentes ficaram sem saber exatamente em que direção olhar e que decisões tomar para garantir as rédeas. Ao longo dessa micro-série de quatro textos, vimos como isso resultou em processos e formas mais ortodoxas de tentar domar a vontade das pessoas. E como isso só serviu para aumentar a revolução da troca de arquivos.

Desde aquela primeira troca de músicas entre Shaw Fanning e seus amigos, ensaiando o início do Napster, o que começou a se construir foi uma Economia da Colaboração, que é até bem simples de compreender. Ela dá cabo a uma grande questão que a maioria das gravadoras nunca pararam para pensar: quando trocam música que compraram antes na rede, o público também está perdendo dinheiro. É uma parte óbvia da economia capitalista que nos diz que dar as coisas que compramos não é uma boa idéia. Mas o público decidiu faze-lo mesmo assim.

Andrew Keen entendeu tudo errado quando falou, em seu Culto do Amador, que estamos vivendo agora em um mundo sem editores. O princípio fundamental da Economia da Colaboração é que, na verdade, nunca tivemos tantos editores como hoje. Nunca houve tanta triagem e seleção como acontece agora na internet através de um processo chamado também de Peering, ou julgamento pelos pares. A melhor maneira de entender isso é experimentar. Vai lá no Wikipedia agora e abre um novo verbete, com seu nome, dizendo que você é o novo presidente do Brasil e volte em aproximadamente dois minutos para ver o resultado da brincadeira.

A internet não é tão colaborativa quanto parece. Não é qualquer um que pode inserir um verbete no Wikipedia, assim como não é qualquer um que pode dizer que aquilo ali está errado. Existem sistemas de prestígio que coordenam todas essas ações. Nós vemos quem colabora mais e melhor e, automáticamente, garantimos mais prestígio a essas pessoas. É por isso que você sabe, por exemplo, qual é o melhor blog para baixar raridades da música brasileira ou então procurar obscuridades da cena psicodélica. E também é por isso que você sabe que aquele site que sempre promete um link quebrado nunca tem tanto acesso.

Isso leva direto a outros dois conceitos importantes, que são o de abertura e compartilhamento. Para crescer o prestígio é preciso que você compartilhe sua tecnologia, conhecimento, sabedoria, etc; e tenha um grande prazer em fazer isso. A principal linguagem de programação hoje na internet, o PHP e MySQL, nasceu assim. E é assim que sites como Google e Craiglist tem somado cada vez mais consumidores de seus produtos. E é assim que o Som Barato deixa de ser um blog feito no quarto de um estudante para se transformar em uma grande comunidade de troca de música.

Existem diversos exemplos no campo da música. Nas comunidades de discografia do Orkut, por exemplo, os usuários já sabem quem manda os melhores links e consegue acesso as raridades. No meio desse processo, a moeda de valor muda para a dos bens simbólicos. E os usuários passam a ganhar mais, quando outras pessoas vão colaborar diretamente com o canal dele. Essa troca de prestígio é a base do sucesso do E-Bay e do Mercado Livre, por exemplo. Afinal, o sucesso ainda se mede com base desses exemplos maiores.

Entender e participar dessa Economia da Colaboração não vai salvar a vida de nenhuma gravadora. Mas é um passo importante de adaptação desse novo ambiente criado pela internet. Principalmente se eu pedir que você me diga, depois de tudo isso que aconteceu de 1999 até hoje, qual é o melhor exemplo de quem não compartilha seu conteúdo e sente um enorme desgosto nessa ação de compartilhar, a ponto de processar quem faz isso? A resposta é a mesma para a pergunta final, “quem é que está com o prestígio mais baixo nessa cultura da troca?”. Acertou quem respondeu “as gravadoras”.

Siga a tag para ler os outros textos três textos que formam essa série.

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