MARCOS BRAGATTO ESTRÉIA PORTAL “ROCKEMGERAL”

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Quem acompanha a cena roqueira nacional nos últimos dez anos já deve ter se deparado textos, fotos e coberturas do jornalista carioca Marcos Bragatto. O cara, que também é fotógrafo, passou várias vezes com seus textos aqui pelo Portal Dosol com resenhas, coberturas de shows entre outros “baragandãs”. Agora Bragatto estréia um portal para chamar de seu no endereço www.rockemgeral.com.br , onde todo o conteúdo que o eternizou como um dos mais legais e completos jornalistas musicais brasileiros, está disponível.

O Portal Dosol recomenda a visita! Repetindo o endereço:

www.rockemgeral.com.br

RESENHA DE DVD: DAVID GILMOUR – LIVE IN GDANSK

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Por Marcos Bragatto

Os mais novos talvez não saibam que o fim do regime socialista no Leste Europeu começou num porto de uma cidade polonesa chamada Gdanski, onde um sindicato liderado por um eletricista de nome Lech Walesa liderou as ações trabalhistas até chegar à presidência da República. Qualquer semelhança com o Lula e o ABC Paulista não é mera coincidência. Nos anos oitenta, o logotipo do Sindicato Solidariedade (Solidarnosc, em polonês) virou até motivo de consumo pop classemediano. Pois foi justamente no tal porto que o eterno ex-Pink Floyd David Gilmour se apresentou, em 2006, no vigésimo sexto aniversário do sindicato, e gravou esse DVD/CD duplo ao vivo, junto com a Orquestra Sinfônica Filarmônica do Báltico.

No Brasil o material aparece nas prateleiras em dois formatos: um só com o CD duplo e outro com o DVD como terceiro disquinho – lá fora CD e DVD são idênticos, e ainda há uma caixa com um terceiro CD, com músicas em versões de outras apresentações durante a mesma turnê. Assim, por aqui periga a opção só de áudio ser a mais interessante. Não que o vídeo não valha a pena – muito ao contrário -, mas o repertório do CD é sete músicas maior, sendo que, entre elas, seis são clássicos do Pink Floyd que jamais poderiam ter ficado de fora do vídeo, prejudicando a íntegra e a seqüência do espetáculo, já que não se sabe, a julgar pelas imagens, que música vem antes da outra. Ademais, onde já se viu um DVD durar menos que um CD? Continuar lendo

COMO FOI? HUMAITÁ PRA PEIXE (RJ) – QUINTA DIA

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Foto: Victor Araújo no HHP2009 por Tomás Rangel

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Vitor Araújo transforma Humaitá Pra Peixe em recital erudito
Tecladista prodígio brilhou em espetáculo contemplativo; Paraphernalia trouxe muitas referências pra pouca música boa.

A primeira noite da segunda semana do Festival Humaitá Pra Peixe foi marcada por opostos. De um lado a big band Paraphernalia, e de outro o pianista prodígio Vitor Araújo, que encontrou na Sala Baden Powell, que outrora já foi um cinema, a acústica ideal para uma apresentação digna de um recital erudito. E não era pra menos. Onde já se viu, num festival de música pop, um pianista falando de Beethoven, Bach e Chopin? Falando, sim, já que o rapaz é bom de conversa e intercala momentos de virtuose com tiradas típicas de comédias “stand up”.

Boa a história de que ele, ao “dobrar” o andamento de uma música de Chico Buarque, descobre que se trata da mesma canção composta por Ray Charles. Ou outra segundo a qual ele pagou mico ao perguntar a um maestro europeu se ele conhecia Radiohead. Tudo isso, claro, mostrando seus argumentos com as teclas. Vitor interpreta músicas de compositores eruditos e pop, aproximando o impossível. Um garoto com visual indie, tênis All Star, mas com a cabeça recheada de partituras e, ao que parece, boas idéias. Uma delas é colocar, na mesma apresentação, ícones do rock, da mpb, da música erudita e do forró, numa versão estendida de “Asa Branca”. Só no bis se permitiu levar uma composição própria. Com tão pouco, fez muito. Continuar lendo

COMO FOI? HUMAITÁ PRA PEIXE (RJ) – QUARTO DIA

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Foto: Daniel Lopes no HPP 2009 por Marcos Dantas

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Daniel Lopes aponta para o pop brasileiro no Humaitá Pra Peixe
Rock retrô do Fuzzcas também brilhou na noite em que o festival voltou pra casa.

Da proposta equivocada do Reverse sobrou o que o grupo tinha de melhor: o cantor e compositor Daniel Lopes. Não apenas vocalista, mas, sobretudo cantor, porque interpreta muito bem músicas não óbvias de outros artistas, além das suas. Foi ele quem se destacou ontem, quando o Humaitá Pra Peixe voltou ao dia da semana e ao local de origem, no reformado Espaço Cultural Sérgio Porto. Antes dele, descido do túnel do tempo de Irwin Allen, o Fuzzcas também foi muito bem.

O show de Daniel se divide em dois. No início e no final ele conta com uma banda que contém contrabaixo acústico, percussão, bateria e guitarra. Na meiuca do repertório, faz três músicas sozinho, com violão e a ajuda de um pedal acoplado a um i-pod. Batendo com a mão no corpo da viola e imitando sons com a boca, ele vai gravando e reproduzindo tudo simultaneamente, fazendo bases e cantando por cima. O resultado é uma performance inesperada que agradou geral ao público, sobretudo no cover – espécie de homenagem ao produtor Quincy Jones – de “Thriller”, aquela mesmo do Michael Jackson.

Daniel Lopes cantou várias das músicas que estão em seu disco de estréia como artista solo, “Mais e Mais Refrões”, mas sua veia de cantor/intérprete falou mais alto. Foi assim na excelente versão de “A Nível de…”, crônica do cotidiano de Aldir Blanc pinçada do repertório tardio de João Bosco; ou ainda em “Laiá Laiá”, assinada por ele, mais que parece ter saído do rol do samba de raiz dos anos 70, onde se salienta uma afro-referência outrora negada, mas hoje admitida pelo cantor em outro momento da apresentação. Daniel parece mesmo livre das amarras típicas de artistas inseguros, e canta com incomum empolgação em “Homem Elefante”, por exemplo.

A diferença entre um show de Daniel Lopes para as músicas disponíveis na web é muito grande. Bom por um lado, por mostrar carisma e peso nas apresentações, mas ruim de outro: o cantor precisa de um produtor que lhe garanta, em disco, o peso que ecoa dos palcos. No fim, Daniel recebeu de presente um bis (fato raro no HPP) tão inesperado que não tinha um plano B. A saída foi repetir a boa “Homem Verde”, e o público nem esquentou a cabeça.

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Foto: Fuzzcas no HHP 2009 por Marcos Dantas

Antes foi a pequetita Carol Lima que tratou de encantar a platéia, à frente do Fuzzcas. O grupo tem estética/temática retrô, sem direção de tempo: de mil novecentos e sessenta e pouco pra trás tá valendo, inclua-se aí The Kinks, Beatles, música de bailinho de escola de filme americano, trilha sonora do cinema mudo e assim por diante. O hit “Deveras”, para se ter uma idéia, bem que poderia ser tema de personagem principal de novelas das seis da Rede Globo.

O que se nota no show do Fuzzcas é que os músicos já não estão inseguros quanto antes, prova de que o fato de o grupo ter tocado bastante nos últimos tempos tem melhorado – e muito – a performance no palco. Carol também está bem mais à vontade, e praticamente não erra o tom a cada música, exceção feita nas mais recentes. O timbre de voz dela, meio rouco, também não facilita as coisas. Outra das novas, “Quero Quero”, foi uma das mais aplaudidas.

Num flerte com o rock nacional produzido nos últimos tempos, o grupo mandou a nova “Se a Saudade Bater”, um folk rock à Vanguart bem sacado, e uma outra música que poderia fazer parte do repertório do Cachorro Grande. De propósito, o final do set engrena como um pot-pourri para “Estúpido Cupido”/“Banho de Lua” (só faltou “Broto Legal”) e “Antes da Tarde Se Acabar”, talvez a música mais pesada do quarteto. Marcado pela evolução, o show mostrou um Fuzzcas num outro patamar. Direto do túnel do tempo.

COMO FOI? HUMAITÁ PRA PEIXE (RJ) – TERCEIRO DIA

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Foto: Supergalo no HPP 2009 por Tomás Rangel

Por Marcois Bragatto, Rio de Janeiro

Encontro dos mundos real e virtual não seduz público no Humaitá Pra Peixe
Supergalo, com integrantes de grupos de sucesso da década passada e o rock juvenil do Catch Side não atraíram grande número de fãs.

Maré baixa no primeiro domingão do Humaitá Pra Peixe. A aposta da produção no rock juvenil do Catch Side não se mostrou eficaz, parece que a grande quantidade de amigos virtuais que a banda fez na internet nos últimos tempos preferiu ficar em casa vendo a transmissão (ao vivo) do show dos rapazes. As cerca de três fileiras empoleiradas na beira do palco não chegaram nem perto da expectativa de público que se tinha, se comparada aos grupos “teens” que tocaram em edições anteriores, como Forfun e Scracho. Se havia aí um filão de mercado, já começa a se esvair.

Mas o som surpreendeu, e muito. Nada do hardcore doce e meloso que tem habitado a cabeça dos adolescentes. Em seu lugar, o Catch Side atira para tudo quanto é lado, como se estivesse em busca de uma identidade, tal qual adolescentes em dúvida sobre o que ser quando crescer. O vocalista Kaká diz que a maior influência do quarteto – que se apresenta quase que com terninhos em branco e preto – são os Beatles, antes de mandar um cover para “Twist And Shout”. Mas o grupo bota Beto Guedes no meio numa cover de “Quando Te Vi”, que é versão dos Beatles também, e ainda toca “Anna Julia”, a música menos Los Hermanos de que se tem notícia. Dá pra sacar?

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Foto: Catch side no HPP2009 por Tomás Rangel

Não dá. Ainda mais se considerarmos que, para uma banda de sete anos de estrada, com o segundo disco no forno, três covers em show de 40 minutos é demais. Das próprias, a balada dramática “Um Sonho” deve estourar no segundo disco, que a Deckdisc promete pra esse ano; “Eu e Você”, que curiosamente é hit numa FM popular de gosto questionável no Rio, se saiu bem; e – pra variar – a boa “O Sonho Não Acabou”, parece conservar a sonoridade antiga e mais pesada do grupo. O que mais chama a atenção, entretanto, é o encontro dos mundos virtual e real: enquanto os primeiros conhecem tudo e cantam o repertório ensaiadinho, os segundos tentam entender o que se passa.

Quem não entendeu nada foi o Supergalo. O grupo veio de Brasília, mas, mal escalado, teve que ver enfrentar a concorrência com uma tarde de autógrafos dos rapazes do Catch Side, que acontecia em paralelo no saguão da Sala Baden Powell. Trairagem dupla da produção do Festival. Sorte é que os cascudos Fred (ex-Raimundos), Alf (Ex-Rumbora) e Salsicha (ex-Maskavo Roots) não se abalaram e partiram para a diversão, mandando as músicas do álbum de estréia deles. Sorte também que aqueles interessados no mundo real – e nem eram tantos – garantiram o mínimo de participação.

Sorte porque Alf e cia. conseguiram reunir um repertório raro, com vocação para o pop. Músicas certeiras como “Bombando em Bagdá” e “Rei do Não”, que juntas abriram o show, ou mesmo a inibida “Perigo Perigo” já têm lugar certo no panteão das melhores composições do rock nacional dos últimos tempos. Ao vivo, é bom ver esses veteranos (sim, Salsicha, o tempo passa pra você também) com a disposição de garotos, sem ter que buscar refúgio em versões de sucessos de suas ex-bandas, muito embora covers de Sex Pistols e Devo serviram para fermentar um repertório ainda reduzido – só um disco foi lançado.

Os mais céticos podem anotar que o Supergalo não passa de uma continuação do Rumbora – e a observação até procede -, mas dessa vez o grupo se superou nas composições e depurou arranjos subtraídos de pretensões que não levavam a lugar algum. Agora, não. A simplicidade dá a tônica e faz das músicas um coletivo de boas idéias que incluem desde a melodia de cada música até sutis passagens instrumentais que enriquecem o chamado “conjunto da obra”. Pena o que o pífio comparecimento do público não contribuiu para uma apresentação, no mínimo, mais intensa. Ficou para a próxima.

COMO FOI? HUMAITÁ PRA PEIXE (RJ) SEGUNDO DIA

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Foto: Supercordas no HPP 2009, por Tomás Rangel

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Indie rock se encontra com rock progressivo e bossa nova no Humaitá Pra Peixe
Supercordas e Luisa Mandou um Beijo mostram que o introspectivo subgênero já não é tão hermético assim.

Na noite reservada ao público indie, o Humaitá Pra Peixe aproveitou para homenagear os 20 anos do selo Midsummer Madness, escalando duas bandas reveladas pelo mentor Rodrigo Lariu. De menor expressão, o Luisa Mandou Um Beijo estava lançando o segundo álbum, prestes a chegar da fábrica. “Borboleta Imperial” é a música escolhida para apresentar o novo trabalho, e começa com a vocalista Flávia Muniz soprando uma mangueira desenrolada junto ao microfone. Ela ainda surpreenderia o público declamando poesias em trechos no meio do repertório, o que – diga-se – não chegou a ajudar muito no processo.

O grupo marca o perigoso encontro do indie com a bossa nova, mesmo que ontem tenha flertado suavemente com o reggae, dub e ska em algumas músicas. O instrumental é coeso, apesar da fama de pouco se apresentar ao vivo, mas peca pela forma sintética com que desenvolve as músicas. Em geral os dois guitarristas tocam sempre a mesma coisa, sem variações, e é raro uma evolução mais ousada ou um solinho distorcido que consagrou o subgênero outrora chamado de “guitar band” – exceto por raros momentos em que o guitarrista PP tem permissão para se soltar. Tanto que 15 músicas foram tocadas em cerca de 45 minutos de show.

É aí que sobressai um elemento que deveria ser secundário: o trompete. É ele que enfatiza as melodias e que sola, fazendo as vezes da guitarra nos melhores momentos do show. É o que acontece, por exemplo, na curiosa “Maracanã”, ou em “Anselmo”, quase um hit deles. Elas enfatizam, no meio indie, uma súbita alegria que coloca em xeque sua própria existência. Triste por definição, o indie se esbalda com um esplendor contido, circunspeto. Uma alegria impossivelmente triste. Mas o que mais se salienta no Luisa é a vocalista Flávia. Raras são as músicas em que ela consegue entrar no tom certo, além de desafinar durante todo o show. De timbre irregular, canta muito mal, dança sem noção rítmica e é o anticarisma em pessoa. Joga por terra, assim, as qualidades pontuais que poderiam fazer da música do grupo algo mais cativante.

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Foto: Luisa Mandou Um Beijo

Já com o Supercordas o buraco é mais embaixo. Aqui o indie rock também saiu da redoma, mas foi ao encontro do rock progressivo e da psicodelia pré-anos 70, e não é só a camiseta do baixista estampada com o ano de 1968 que denuncia isso. Os três guitarristas, cada qual com seu rumo, o telão reproduzindo as bolhas de óleo e os efeitos que saem dos pedais dão a impressão que estamos prestes a ver um show do Pink Floyd nos melhores momentos de Syd Barrett. O contexto inibe até as citações à simplicidade do rock rural que, se discretas, tornaram-se lugar comum nas inúmeras tentativas de explicar o som dos rapazes por parte da crônica musical.

Tanto que o violão pouco aparece nas músicas, e quando o faz não prejudica o todo. “Orquestra de Mil Martelos”, definida pelo vocalista fã de duendes como “quase um rock rural” é na verdade uma ode psicodélica de grandes proporções. Efeitos de todos os lados surgem no meio da música, de arranjo rebuscado que realça a dicotomia simples/complexo em seus extremos. “Um Grande Trem Positivista”, grandiloquente já no título, é outra em que, apesar da subtração de uma das guitarras, prevalece o clima retrô/moderno comum aos caminhos cruzados do indie rock com o rock progressivo.

Preparando o segundo disco, o grupo aproveitou para mostrar músicas novas como a boa “Mágica”, de inspiração no blues de raiz e que traz o guitarrista com cara de viajandão num enlace com sua pedaleira. Outra é a pouco ensaiada “Belo Horizonte”, que leva o terceiro guitarrista – Filipe Giraknob – a um teclado que serve para tudo, menos para ser tocado como se fosse um piano. Foi o fechamento precoce (só nove músicas?) para uma banda já com certa estrada e relevante produção, que, ao fundir elementos díspares de fases distintas do rock, deu de cara com uma sonoridade contemporânea e diferenciada.

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COMO FOI? FESTIVAL HUMAITÁ PRA PEIXE (RJ) PRIMEIRO DIA

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Foto: 3namassa por Thomás Rangel

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

“Música de fundo” do 3namassa abre Humaitá Pra Peixe
Projeto lounge que salienta vozes femininas não funcionou muito bem ao vivo, mas platéia contemplativa aplaudiu mesmo assim.

Historicamente os projetos paralelos de artistas que se destacaram em outras bandas e o Festival Humaitá Pra Peixe têm tudo a ver, sobretudo em noites de abertura ou encerramento. Ontem, na vizinha Copacabana, coube ao 3namassa, de integrantes do Nação Zumbi e Instituto, abrir a edição desse ano. O tal projeto consiste em evidenciar vozes femininas sobre bases desenroladas pelos músicos, coisa que funcionou bem o CD lançado ano passado, “Na Confraria das Sedutoras”.

Como projeto, no entanto, funciona muito mais em disco do que no palco. Juntar uma pá de mulheres para cantar sobre as bases feita por Pupilo, Dengue e Rica Amabis não é nada fácil, e por isso mesmo só quatro das treze que cantam no disco deram o a da graça na Sala Baden Powell. A irresistivelmente sexy Thalma de Freitas, a desengonçada Karine Carvalho, a fofa Lurdes da Luz e a esquálida Geanine Marques conseguiram o que parecia impossível: dançar e esboçar alguma performance (sobretudo Thalma) em músicas cuja vocação é fazer viajar, ainda mais para uma platéia sentada e contemplativa.

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Foto: Sala Baden Powell por Thomás Rangel

Musicalmente se percebe que, no palco, o 3namassa é uma banda de baixista, com Dengue comandando todas as músicas sem dar muita bola para o MPC de Rica, e muitas vezes deixa a guitarra do quarto elemento oculta. É Dengue quem decide os andamentos lentos e viajandões – salvo raras exceções – das músicas, que, se bem executadas e agradáveis, soam monótonas como se o local, em vez de ser um espaço para shows, fosse uma enorme lounge ao vivo, com o público a espera de algo que viria depois. Não veio. A apresentação é curta, até pela falta de repertório, que abre espaço para versões de músicas do Rei Roberto Carlos nos tempos da jovem guarda e até de uma Madonna pouco conhecida.

Sobrou, então, para as vocalistas a salvação da lavoura, mas só Thalma tinha intimidade com o riscado e o mínimo de bom gosto. Sob uma cabeleira black nos 70 e dentro de um vestidão estampado com as costas nuas, a cantora foi mais atriz do que nunca, esbanjando sensualidade nas músicas em que cantou sozinha, e até no dueto “delícia” – como disse o MC no playback – com Karine. Pena que esta, de figurino ordinário, não entrou no clima ao ser praticamente encoxada por Thalma. Alguém deveria ter apresentado o palco à dublê de cantora, que chegou a imitar os irritantes traquejos vocais do maridão Amarante.

Por ser modelo, Geanine Marques deve ter licença do Ministério da Saúde para exibir um visual cáustico de tão magro que projeta um esqueleto fora de proporções e agride a paisagem que se tem do palco, sob luz baixa e com vídeos realçando ao fundo. Quase imóvel, não soube aproveitar a experiência das passarelas. Lurdes da Luz teve seu melhor no momento num rap muito bem cantado, mas foi só. Talvez se juntasse ela e Thalma a coisa poderia ser melhor. Ou talvez o espetáculo tenha sido tudo muito bom mesmo, se considerarmos os aplausos complacentes de um público que só não lotou o teatro por causa de 50 furões.

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MARCOS BRAGATTO (RJ): UM VERDADEIRO PRESENTE DE NATAL

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Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Relançamento de vídeo histórico do U2 redime o Natal até mesmo para quem considera a festa capitalista um grande horror. Há coisas que só o rock’n’roll pode fazer por você.

Meus amigos, o tempo passa, o tempo voa e a Vera Fischer continua muito boa. Vejam vocês que, um vídeo que assisti em primeiríssima mão em 1985 completa 25 anos e chega, enfim, ao formato DVD. E eis, que, do nada, ele surge das mãos do jovem entregador – mais jovem que o próprio filme, talvez – dentro de um insuspeito envelope branco, em vez de vir saltitante na famosa sacolinha. Sua chegada é tão importante e surpreendente que sou obrigado a quebrar o protocolo e considerá-lo o mais importante presente de Natal de todos os tempos. Ainda mais numa coluna escrita nesse 25 de dezembro. Continuar lendo

MARCOS BRAGATTO (RJ): MELHOR DO QUE ANTES OU ROCK CARIOCA: A LUZ NO FIM DO TÚNEO

Meus amigos, nada como um dia após o outro. Desde que tenho essa coluna virtual me lembro de ter feito ao menos dois textos falando especificamente sobre as novidades do rock carioca. Num deles, já há algum tempo, enchi de elogios a tal cena que via, em qualidade e diversidade de bandas. Noutro, o mais recente, escrito em julho desse ano, a despeito da final do festival das seletivas para o Mada, vi que a coisa estava muito ruim. Como poderiam as bandas que disputavam uma final de um festival ser tão ruim? Dureza, meus amigos, dureza.

Mas disse que nada como um dia após o outro. Eis que, no finalzinho desse ano, fui convidado para ser jurado do Festival B de Banda, gêmeo da tal seletiva, em todas as cinco eliminatórias e também na final. Posso concluir, com o alívio dos entusiastas de rock, que nem tudo está perdido. Ou, por outra, não há nada perdido. Não sei se a pré-seleção foi mais criteriosa, se mais bandas legais apareceram, se as bandas ruins jogaram a toalha, mas o fato é que, diferentemente daquilo que escrevi aqui, hoje a coisa está melhor que antes. Ligeiramente melhor, diga-se, mas melhor é melhor e não se fala mais nisso. Continuar lendo

MARCOS BRAGATTO (RJ): GUNS N`ROSES X AC/DC. QUEM PODE MAIS?

Por Marcos Bragatto

Conteúdo: Rock em Geral

Se as vendas de “Chinese Democracy” não são tão boas quanto se esperava, o AC/DC deita e rola com “Black Ice”; enquanto Axl se esconde, Angus e cia. não param de tocar em arenas lotadas.

Meus amigos, a maré não está pra peixe. Ou, por outra, está sim. E nem estou falando das águas avantajadas que cobriram a bela Santa Catarina. Porque, se o momento é de crise, crise é oportunidade, diz o sádico sábio do capitalismo. E se o socialismo ruiu junto com a queda do muro de Berlim, hoje, que salva a iniciativa privada é o Estado. Sim, meus amigos, é o dinheiro do contribuinte, o suado salário do trabalhador que está salvando da falência as grandes empresas. “Here, there and everywhere”, diria Ian McCulloch. “Do It Clean!”. Que vergonha, meus amigos, que vergonha. Continuar lendo

SHOWS DO RADIOHEAD NO BRASIL TERÃO ABERTURA DO KRAFTWERK

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

A segunda atração do Festival Just a Fest deve ser o Kraftwerk. A primeira – e principal – é o Radiohead, para quem o grupo alemão vai fazer a abertura também no México, Argentina e Chile. As informações não foram fornecidas pela produção do festival no Brasil, mas estão postadas no site oficial do Radiohead.

O evento acontece nos dias 20 de março, no Rio, na Praça da Apoteose, e 22 de março, em São Paulo, na Chácara do Jockey. Ao menos outras duas atrações ainda devem ser anunciadas, mas os ingressos já estão à venda através do site www.ingresso.com, e nas bilheterias dos estádios do Pacaembu, em São Paulo, e do Maracanãzinho, no Rio. Ainda há ingressos disponíveis para as duas datas, a R$ 200.

COMO FOI? FACE TO FACE NO RIO DE JANEIRO

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Conteúdo: Rock em Geral

Grupo americano encerrou a turnê pelo Brasil, ontem, no Rio, encerrando, enfim, a década passada.

Dizem que é difícil fazer o tempo voltar atrás, mas foi exatamente essa a sensação que se tinha no Namastê Clube, no Rio de Janeiro, durante a apresentação do Face to Face: um túnel do tempo de mais ou menos uns dez anos. Não que não houvesse a presença dos mais jovens, que se estatelavam entre a grade e as inevitáveis rodas de pogo, mas marcou o comparecimento de gente que fazia dos anos 90 um período muito mais ativo (e fértil) para o hardcore melódico e afins. Continuar lendo

MARCOS BRAGATTO (RJ): POEIRA ZINE FAZ JORNALISMO ROCK COMO ELE DEVE SER

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Conteúdo: Rock em Geral

Meus amigos, recordar é viver. Foi pensando assim que, ao receber um e-mail de divulgação lançando uma nova edição do Poeira Zine, fiquei embasbacado ao ver, estampado na capa, o excepcional Gov’t Mule. Não sei se o nome lhes é familiar, caros leitores. Mas a mim, sim. Acontece que, por conta do destino, me vi separado do grupo que descobri pelas andanças do rock, tocando ao vivo, em pleno Canecão, a casa da música popular brasileira, no longínquo ano de 1996. Disse que me vi separado e repito: nunca mais tinha ouvido falar dessa extraordinária banda cujas fotos do show ainda estão aqui os meus alfarrábios . Ou, por outra, só li uma nota quando o baixista original faleceu, em 2002. Pensei que, depois disso, o Gov’t Mule tinha ido para o saco. Pois não foi.

Falei do Poeira Zine e não sei se vocês o conhecem. Tem nome de zine, mas é, na verdade, uma revista. Digo isso porque as matérias são escritas, diagramadas, impressas em gráfica e encadernadas, em “off-set”, com capa em papel couchê e tudo. Por isso chamo de revista, embora seja batizado como zine. Curioso que, na década de 90, a Rock Press tinha mais ou menos o mesmo formato e era uma revista, embora muito chamassem a publicação (as vezes com conotação pejorativa) de zine. Isso, hoje, já não tem a menor importância. A Rock Press, como boa parte das publicações impressas, virou site, e o Poeira Zine reina. Continuar lendo

MARCOS BRAGATTO (RJ): SE NÃO ARRUMAR UMA BOA VOCALISTA O NIGHTWISH JÁ ERA

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Conteúdo: Rock em Geral

Meus amigos, às vezes chega a hora, enfim, de se ter uma opinião definitiva. Ao invés de dizer, cravar, sentenciar. Pois eu lhes digo que demorei muito a chegar a conclusão que, enfim, vou revelar. Demorei a chegar a essa conclusão, mas a encontrei ontem à noite – quem diria – no Circo Voador, talvez o lugar em que mais eu fiz reflexões em toda essa vida de velho homem da imprensa. Ou seja, demorei a concluir, mas não vou hesitar e espalhar aos quatro ventos o que há pouco defini. Pois o Nightwish é muito melhor com Tarja Turunen. Pronto, falei. Continuar lendo

COMO FOI? QUEEN NO RIO

Formação enxuta, com Paul Rodgers nos vocais, trouxe ainda músicas novas e hits da das carreiras solos dos integrantes; em estado de graça, platéia aplaude até solo de bateria. Fotos: Alexandre Grand / Divulgação In Press (1 e 3) e Daryan Dorneles (2, 4 e 5).

Por Marcos Bragatto

Conteúdo: Rock Em Geral

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Paul Rodgers e Brian May entraram no palco com a corda toda, em coregrafias ensaiadas

Uma versão reformada do Queen com o vocalista Paul Rodgers se apresentou ontem no HSBC Arena, no Rio, para um público estimado em 6 mil pessoas. O que parecia ser um evento revivalista acabou se mostrando um espetáculo de rock inimaginável nos dias de hoje, seja pela qualidade do repertório ou pela robusta duração do show. O big bang que aparece no telão gigante no início simboliza um recomeçar improvável para uma banda que tinha como marca registrada o carisma de um vocalista sem igual. Mas o Queen sempre foi, também, uma reunião de gênios polivalentes, e essa versão em parceria com Paul Rodgers reafirma uma impecável divisão de tarefas. Continuar lendo

RESENHA DE DISCO: JOE SATRIANI – PROFESSOR SATCHAFUNKILUS AND THE MUSTERION OF ROCK

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Por Marcos Bragatto

Conteúdo: Rock Em Geral

A principal característica de um bom disco de um guitarrista solo como Joe Satriani está em saber escolher com precisão o repertório, uma vez que, se bobear, a audição pode se tornar algo penoso de tão repetitivo. Convenhamos que tendo vocais (e algo a ser cantado) a menos, é mais difícil munir as canções de variantes interessantes. Satriani consegue porque tem o dom de substituir os trechos vocais por fraseados de guitarra de bom gosto apuradíssimo, e – mais ainda – funde os excessos que o gênero poderia lhe oferecer com as limitações da canção pop em si. E nesse álbum de nome esquisito consegue mais uma vez um bom punhado de boas músicas – algumas seguramente já garantem lugar num próximo “best of” do guitarrista. Continuar lendo

MARCOS BRAGATTO (RJ): O MUNDO VIVE UMA NOVA ONDA DA AC/DC MANIA

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro

Conteúdo: Rock Em Geral

Meus amigos, não há mal que dure pra sempre nem bem que nunca se acabe. Às vezes, no mundo do rock, quando tudo vai por um caminho, alguém vem por outro e atropela sem tomar conhecimento. Vejam o AC/DC, por exemplo. Ou, por outra, antes vejam o que se tornou o mercado fonográfico. Um Radiohead aqui tentando faturar usando o modelo “quer pagar quanto”, um Nine Inch Nails acolá liberando disco gratuitamente, todo mundo buscando um jeito de faturar no mundo virtual, porque, no físico, hoje representado pelo CD, isso é impossível. Porque, sozinho, sem o mínimo o apoio de estratégias virtuais, o CD, segundo consta, não vende mais. Um paradigma que vem se estabelecendo. Uma verdade absoluta ou algo que o valha.

Eis que surge, então, o AC/DC. Com o novo álbum, “Black Ice”, o grupo ocupou por duas semanas seguidas o topo da parada americana, coisa que não havia acontecido antes. Além do mercado americano, ficou por cima da carne seca ainda em mais outros 28 países, incluindo grandes mercados europeus como Alemanha, Espanha, Dinamarca, Bélgica e Noruega. Vendeu, nesse período, mais – muito mais – que banana em feira: cerca de 5 milhões de discos. E a única estratégia utilizada pelo grupo foi a assinatura de um contrato com a rede varejista Wal-Mart. Sim, meus amigos, nada de colocar música na web e coisa e tal. O grupo australiano, inclusive, não gosta de vender música separadamente no i-tunes, como disse o vocalista Brian Johnson. E, ainda assim, uma empresa que verifica downloads apurou que, entre o dia do vazamento de “Black Ice” e o do lançamento oficial, cerca de 100 mil pessoas baixaram o CD por dia. É mole? Continuar lendo

RESENHA DE DISCO: THE VERVE – FORTH

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Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro (RJ)

Conteúdo: Rock Em Geral

Naquilo que se convencionou chamar de britpop, o Verve é considerado precursor, mas pouca gente poderia apostar num retorno da banda após cerca de dez aos de seu fim, e – o melhor – em grande forma. “Forth”, de título óbvio, se revela desde o início uma peça de apurado bom gosto que parece reunir boa parte de tudo o que de bom se fez no rock inglês nos últimos tempos, excetuando-se a inevitável volta os anos 80 que empesteou todas as bandas pós anos 2000. Pois o Verve pulou essa parte sem soar “anos 90”, mas apostando no que, depois de pronto, se assemelha a uma espécie de síntese do rock britânico e de si próprio. Continuar lendo

COMO FOI? R.E.M. NO RIO DE JANEIRO

Por Marcos Bragatto, Rio de Janeiro/RJ

Conteúdo: Rock Em Geral

Grupo americano apresentou cinco músicas do novo álbum, “Accelerate”, e reviveu grandes sucessos, mas quase pôs tudo a perder com set list mal concatenado. Fotos: Ricardo Nunes / Divulgação Inpress.

Na primeira vez em que veio ao Rio para um show só seu, o R.E.M. convenceu a platéia revivendo grandes sucessos a apresentando as músicas do álbum mais recente, “Accelerate”. Boa parte do público cantou todas a letras das cinco novas, sendo que “Supernatural Superserious”, que abriu o bis, já é praticamente um hit, e “Man-Sized Wreath” também agradou geral. O palco é montado com três telões, sendo o central, maior, todo reticulado e que reproduzia (na maior parte do tempo) temas associados à arte de “Accelerate” e imagens capturadas ao vivo por duas câmeras e tratadas visualmente quase que em tempo real. Além do trio remanescente da formação original, a banda tem um baterista contratado e um guitarrista/tecladista/baixista de apoio. Continuar lendo

MARCOS BRAGATTO (RJ): O FIM DO TIM FESTIVAL

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Meus amigos, o tempo é o senhor da razão. A frase é milenar, mas toda vez que lembro dela me vem à cabeça o ex-presidente Collor. Nos idos de 1992, todo domingo pela manhã ele saía da residência oficial para dar uma corrida, e jamais concedia entrevistas. Já estava sendo investigado no escândalo detonado pelo irmão Pedro, que o levara a ser impedido de exercer o cargo de Presidente da República. Preferia, então, usar camisetas com frases “de efeito” para se comunicar com a Nação. Num desses domingos a frase foi essa. O tempo é o senhor da razão. E ela se mostrou correta: passou o tempo e Collor foi impedido de ser presidente e de se candidatar a cargos públicos durante oito anos. Hoje é senador, mais isso são outros quinhentos.

E daí? Pergunta o leitor indignado. O que isso tem a ver com o rock e com o fim do TIM Festival, anunciado lá no título? Nada, acredito eu. Só lembrei da passagem e resolvi contar. Ou, por outra, tem a ver sim, e nem é preciso forçar tanto a barra. Collor, nesse período, vivia num mundo no qual se achava intocável, e onde poderia fazer o que quisesse que estava feito. Era o próprio dono do mundo diante de sua estapafúrdia “república das Alagoas”, tão bem dissecada, na época – vejam vocês, e sem trocadilhos – pela Veja. Se tivesse o mínimo de noção de que realmente o impedimento era factível, Collor, que era um animal, mas jamais burro, teria feito esforços para não perder o cargo, e conseguiria com facilidade, era só reconquistar o apoio perdido no Congresso, que é quem vota o tal impedimento. Collor caiu porque se achava um intocável. Continuar lendo