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RESENHA DE FILME: SHINE A LIGHT

Num mundo em que a imagem é cada vez mais parte de um lançamento musical e gravar um DVD ao vivo é item quase obrigatório, sobretudo para artistas veteranos, os Rolling Stones vão mais longe e decidem fazer um longa-metragem dirigido pelo consagrado diretor americano Martin Scorsese. É evidente que logo a filme será formatado para DVD, mas nada se compara ao som e a imagem de cinema, por mais polegadas que tenha a sua TV e potência as suas caixinhas de som. E isso sem falar que, apesar de não ser tão baratinho assim, em linhas gerais o cinema ainda parece ser mais democrático que o DVD, e deve atingir mais público. Resta saber o que tem Scorsese a contribuir com os Stones e vice-versa.

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A produção teve que aumentar a quantidade
de luz para facilitar as filmagens

A primeira dificuldade que Scorsese encontra é saber o que vai acontecer. Embora seja ele o diretor, quem está no comando do show é a banda, que não passa o repertório do espetáculo até que ele comece efetivamente. Scorsese quebra a cabeça com três listas gigantes de onde podem sair as músicas, e aparece no início do filme preocupado em dar um close em Keith Richards – caso a primeira música comece com um riff de guitarra. Ele tem à disposição uma senhora ilha de edição ao vivo e um bom número de câmeras, mas fica encafifado com o detalhe, até a banda iniciar a festa com “Jumping Jack Flash” (a mesma que o diretor utilizou num de seus primeiros filmes, “Caminhos Perigosos”, de 1973) e o set list, enfim, chegar às suas mãos. Outras preocupações que aparecem no início da fita são o arranjo do palco, dada a necessidade de uma quantidade de iluminação bem superior à utilizada normalmente num show de rock, e a “social” que os músicos têm que fazer com o ex-presidente Bill Clinton, família e convidados, já que ele é integrante da ong que promove os shows e aparece para cumprimentar Jagger e cia.

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Equipe de filmagem, incluindo Martin Scorsese,
acerta detalhes com Mick Jagger

As cenas de backstage param aí, e a festa começa trazendo abaixo o teatro, completamente lotado. O show foi gravado no tradicional Beacon Theater, em Nova York, durante a turnê do álbum “A Bigger Bang”, em 2006, a mesma que arrastou mais de um milhão à Praia de Copacabana. Mas o repertório foi bastante modificado, daí as incertezas de Scorsese. O que impressiona logo de cara é a edição que quase não consegue deixar aparecer rebarbas das 16 câmeras utilizadas e de outros profissionais envolvidos, mesmo garantindo closes e ângulos muito bem sacados, e às vezes até “mais íntimos” que o corriqueiro, como quando Keith Richards troca de roupa ao lado da bateria, ou num momento em que o batera Charlie Watts quase perde o fôlego após uma bela evolução da banda, no início do show. Para isso, valeu a perícia da equipe de Scorsese, já que o mesmo show foi filmado em duas noites seguidas.

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Buddy Guy duela com Keith Richards

Musicalmente, os Stones, além de terem selecionado um repertório bem próprio, incluindo músicas que não vinham sendo tocadas regularmente na turnê, prepararam versões ligeiramente modificadas para a maioria delas. “Jumping Jack Flash”, por exemplo, tem um trabalho de guitarras diferenciado que ofusca um pouco o tradicional riff, mas não lhe rouba o peso. Como de hábito, há convidados especiais. Jack White é o primeiro, que, discreto, divide os vocais e toca violão com Mick Jagger na baladinha “Loving Cup”; o veterano do blues Buddy Guy aparece em “Champagne & Reefer”, de Muddy Waters, que Jagger cantarolava no hotel, e ainda ganha de presente a guitarra usada por Richards; e uma bela Christina Aguilera, que tinha a função de apenas se esfregar em Jagger, se sai muito bem em “Live With Me”, mostrando que saber interpretar (é um filme, não é?) uma rocker, quando necessário.

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Jack White ficou só no violãozinho com Mick
Jagger

A necessária pitada de humor e sarcasmo, que não poderia ficar de fora em se tratando de Rolling Stones, está em cenas antigas em que a banda aparece concedendo entrevistas em situações impagáveis. Numa delas, nos anos 60, Mick Jagger chega de helicóptero, logo após sair da cadeia, para participar de um debate sobre liberdade de expressão com políticos e autoridades religiosas. Numa outra, Jagger, em 1964, perguntado sobre até quando acha que vai continuar cantando, diz, sério, “no mínimo por mais dois anos”. A pergunta “até quando vão continuar”, aliás, foi eleita por Richards como a que mais é feita para a banda, muito embora nunca tenha sido respondida. Outra pérola mostra Jagger animado quando uma entrevistadora oriental descobre, já nos dias de hoje, que tem a mesma idade que ele: 29 anos. E por fim, Richards e Ron Wood se mostram parceiros inseparáveis em suas pirações. As cenas acabam saindo como um contraponto interessante e que quebra um pouco o ritmo do show, afinal trata-se de um longa-metragem.

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Christina Aguilera se saiu
bem no papel de “rocker”

Martin Scorsese, cujo nome já vale a indicação de um filme, não poupou na hora de escolher sua equipe. Entre outros nomes de extenso currículo em Hollywood, convocou para a empreitada o diretor de fotografia Robert Richardson (“Casino”, “JFK”, que lhe valeu o Oscar), o operador de câmera John Toll (Oscar por “Coração Valente” e “Lendas da Paixão”), e o onipresente operador de steadicam Chris Haarhoff. Outros destaques no filme são as músicas “She Was Hot”, aquela em que Charlie Watts perde o fôlego; “Some Girls”, cuja letra é emblemática para o mulherengo Mick Jagger; a já citada “Champagne & Reefer”, com um sensacional duelo de guitarra de Buddy Guy com Keith Richards, e provocações vocais entre Jagger e o blueseiro; e, já no fim, quando o público é que é o destaque, em hits do naipe de “Brown Sugar”, “Start Me Up” e a interminável “Satisfaction”. “Shine a Light” tem estréia mundial nos cinemas no dia 4 de abril. O CD duplo com a trilha sonora do filme, chega às lojas brasileiras quatro dias depois.

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