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PULSO#5 – A FORÇA DO NORDESTE PARA A MÚSICA BRASILEIRA

Quando cogitei a possibilidade de aceitar o convite da Red Bull para ser um dos curadores do Pulso eu tinha uma certeza comigo: só convidaria pessoas do Nordeste brasileiro para estar no meu grupo de artistas residentes. Assim foi.

Quem me conhece sabe que eu sou total “no flag, no nation”, acho uma bobagem sem tamanho bandeiras, fronteiras, essa noção nociva do que é imigração, do que é ir de um país para outro, de um estado para outro e por aí vai. O mundo para mim é um só, com suas especificidades localizadas e com a humanidade e amor mundial como guia e fim de papo.

Mas como poucas vezes fiz na vida, pensei que seria uma ótima oportunidade levar minha turma do Nordeste nesse barco, levando em consideração alguma reserva territorial.

Alguns motivos me levaram a isso. O principal deles e o mais forte foi a questão de como temos encarado a música nordestina, com sotaque nordestino, desde que o manguebeat apareceu há 27 anos no Recife. Me bateu uma baita reflexão de como temos encarado o nosso sotaque, as nossas raízes, os nossos encantamentos de lá para cá.

Vimos surgir uma espetacular geração de pensadores da música, artistas multifacetados quando a gente mal sabia o significado da expressão “multicultural”. Esses influencers orgânicos inspiraram uma geração inteira de bandas e artistas querendo repetir a fórmula sem ir na essência, sem ler Josué de Castro, Câmara Cascudo, sem entender o tambor da própria terra, a diversidade de cada pedaço de chão do Nordeste brasileiro. Um emaranhado de histórias e mitos sem fim que dariam séculos de influência para qualquer artista. Um mesmo nunca me atrevi a fazer música com influências regionais. Fruto da minha experiência dentro de Natal, muito mais influenciada pela presença americana na segunda guerra do que por elementos da música de raiz do resto do Nordeste. Especificidades.

Claro, vários artistas interessantes e incríveis apareceram nesses 27 anos pelo Nordeste. Algumas cidades como Fortaleza, João Pessoa e Natal viraram polos criativos tão interessantes quanto Recife ou Salvador. Mas houve uma birra com nosso sotaque, uma ruptura com nossas raízes mais profundas. Cantar a nordestinidade virou “parafolclórico”, virou um pastiche de manguebeat em quase todas as tentativas. Eu até concordaria que teve uma período em que ficou estranho ver uma banda sei lá, de Natal, querendo fazer uma música com maracatu de baque virado, sem dominar a linguagem e nem seus significados. Não há maracatu de raiz em Natal, não é uma expressão potiguar. Temos outras incríveis por aqui.

Ficou demodé cantar no “idioma” nordestino e isso foi (é) muito ruim.

E eu aqui na minha bolha musical pensando: caramba, olha o Bahia Bass o que está fazendo? Remodelando a música dançante brasileira, olha o Russo Passapusso, olha o Atooxxa, olha a Radiola Serra Alta, o Chico Correa, o Dusouto, MC Loma, Furmiga Dub, só para citar alguns. Temos uma nova leva de nordestinidade sem vergonha acontecendo, e como vivemos outros tempos, vai meio passando em branco a narrativa mais macro desse processo.

Quero dizer que formei meu grupo de nordestinos no Pulso para dizer que podemos sim cantar no nosso sotaque, do nosso jeito, com a música das nossas raízes, com o brega das nossas feiras, com o samba duro das nossas quebradas, com a modernidade universal dos beats, de um jeito muito mais orgânico, menos “encenado”, menos preocupado com a fronteira. Só ser nordestino e pronto, adeus bandeiras!

O mais bonito disso tudo, é que você pode ser nordestino e cantar em inglês, você pode ter um grupo de rock instrumental sem dizer nada e sem tambor, isso não vai tirar de nós o fato de sermos quem a gente é. Não é uma reafirmação de sotaques, é uma liberdade que deixa você fazer o que bem entender, usar tudo disponível e se sentir livre. Quis trazer meus amigos do Nordeste pro Pulso porque tenho a total noção de como eles são contemporâneos, atualizados e relevantes. Não são cópias do que já teve. São frutos daquela influência de 91.

Por muito tempo ficamos envergonhados de ser herdeiros do manguebeat, de ser taxados como cópias, uma (o)pressão disfuncional e maléfica para a música feita no Nordeste brasileiro. SOMOS SIM HERDEIROS DO MANGUEBEAT COM MUITO ORGULHO. E o que mais essa influência nos ensinou é que podemos ser e fazer o som que a gente quiser, do beat quebrado do Chico Correa, às guitarras bregosas do Catatau.

Viva o Nordeste Brasileiro.

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