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PORTAL DOSOL RECOMENDA: PARA COLORIR – RICARDO CURY

Quando encontramos “gênios da raça” temos que reverenciar mesmo que ele seja um ilustre desconhecido da maioria das pessoas. Hoje, eu queria ser o Cury. Um cara de Salvador que é músico – tocou no lendário e seminal brincando de deus – e cronista do cotidiano roquístico.

Ele acabou de lançar um livro chamado “Para Colorir” com textos excelentes sobre rock, música (duas coisas diferentes) e o cotidiano dele e do mundo. Recomendo muito, mesmo ainda não tendo minha cópia (que já encomendei). Você pode acha-lo aqui. No fotolog do rapaz nos posts recentes tem fotos de várias pessoas com instrumentos em diversos bairros de Salvador. Ele bate a foto e conversa com as pessoas. Simples assim. No ano foi a minha melhor descoberta junto com o Holger de SP.

Não acredita? Então lê aí um texto que roubei do blog dele. O dia em que o Mark Arm (Mudhoney) ia morrendo em Salvador:

“Even if the sun goes down (I’ll surf)”

Jaguaribe no Wikipédia, segundo Silveira Bueno, é vocábulo indígena que significa “no rio das onças”. Do tupi yaguar: onça; y: rio; e pe: em.

Jaguaribe em Salvador é uma praia que era muito bonita. A freqüentei na minha infância e adolescência. Hoje continua bonita pela beleza natural, mas destruída pelas administrações públicas, que começaram uma obra de padronização das barracas, mas que foi embargada pelos ambientalistas, ficando a obra pela metade, deixando a praia bagunçada, suja e sem infra-estrutura.

O maior impacto musical dos anos 90 foi o Nirvana. Pelo menos pra mim. Mas desconfio que não teve esse que não ficou arrepiado quando o baterista Dave Grohl deu as primeiras porradas na bateria na introdução da música Smells Like Teen Spirit².

Como toda banda que causa impacto, assim como em qualquer outra expressão artística, o Nirvana trouxe consigo uma série de bandas no rastro, fazendo-as aparecer também. Algumas que são cópias e ficam espalhadas pelo mundo; outras que são conterrâneas e contemporâneas; outras que não são contemporâneas, mas que são conterrâneas e referências; e outras que são apenas referências. No caso do Nirvana, a influência mais direta pra aquela sonoridade violenta, suja e desafinada era a banda Mudhoney, que era conterrânea (de Seattle), contemporânea (dos anos 90) e uma forte referência (aí, só ouvindo pra entender). Seus discos vieram na carona do sucesso do Nirvana e foram muito bem vendidos aqui no Brasil, considerando o meio alternativo em que a banda está inserida.

Uma das mais expressivas atrizes da história da Bahia morreu, aos 85, no dia 10/10 desse ano. Tentei falar várias vezes com meu amigo Ricardo Spencer, neto de Nilda, mas não conseguia. Quatro dias depois, o telefone tocou:
– E aí, man?
– Quem é? – não reconheci a voz.
Ele riu:
– Sou eu, Spencer… só parei de beber ontem. Preciso trabalhar. Senti uns tapas de minha vó me batendo na cara como se dissesse “vá trabalhar, meu querido Ricão”.

Ela era sua amiga de trocar idéias e referências. Até sobre Bukowski, avó e neto conversavam. Nilda Spencer era também grande pianista.
– Preciso de uma carona – disse ele.

Veio se despedir da avó, justamente quando Salvador teria o seu segundo grande show de rock de uma banda internacional, desde o tempo de Tomé de Souza. O primeiro foi em 2005, com Placebo. Agora, três anos depois, Messias estava produzindo a 4º edição do festival Boom Bahia e convidou o Mudhoney, que já estaria em turnê pelo Brasil, para fechar o evento. Eles aceitaram.

Spencer está morando em São Paulo há quatro anos, trabalhando como diretor de cinema, sendo reconhecido com premiações nacionais da MTV e Multishow. Saiu de Salvador com três clipes no currículo. Hoje tem 24. Me ligou porque precisava fazer o vigésimo quinto e, para isso, tinha de chegar até o hotel onde o Mudhoney estava hospedado. Teve a idéia do vídeo, comunicou a Messias, que conversou com os caras, que deram o “ok”.
– E vai ser como isso? Tem roteiro?
– No caminho te explico.

E explicou:
A banda estava de folga e queria porque queria ir surfar. Iriam para a praia, alugariam pranchas, pegariam ondas, tomariam cervejas e caipirinhas, enquanto Spencer filmaria o que lhe fosse interessante. O resto das imagens seria feito no dia seguinte, de tarde, durante a passagem de som no Pelourinho, e de noite, durante o show.

– Que praia é?
– Jaguaribe – respondeu Cássia, a cicerone do Mudhoney em Salvador, no hall do hotel. – Vai com a gente? – perguntou ela.
– Não sei – respondi.
Pela chuva que caiu de manhã, pelo vento que fazia e pelo próprio aspecto em que a praia de Jaguaribe se encontra, achei a idéia ruim. Sem falar na hepatite.
– Eles sabem surfar? O mar tá grande e mexido – perguntei.
– Sei lá se sabem surfar… Onde é que se surfa em Seattle, naquele frio, sem praia?
O filho dela, Ian, 19 anos, surfista desde pequeno, iria também, meio que pra tomar conta.
Ainda no hall do hotel, conheci Mark Arm, líder da banda. Não mudou nada. Mesmo cabelo, mesmo nariz. Spencer ficou trocando idéias com eles e mostrando o equipamento que usaria paras fazer as imagens: uma Super 8; uma HD e mais uma 16 mm.
O jornalista Chico Castro, do jornal A TARDE, chegou para fazer uma entrevista com a banda. Spencer ficou cuidando dos preparativos e pediu pra eu ir com eles.
– Bora, porra, a gente vai se divertir, um dia na praia com o Mudhoney.
Tem gente que anda com shorts e chuteiras no carro, no intuito de qualquer eventual jogo de futebol que apareça. Eu ando com uma sunga e um óculos de natação.
– Vou praticar meu jacaré, então.
Alugaram longboards e entraram no nada chamativo mar de Jaguaribe. Ian ficou tentando entrar no mar com Guy (o baixista) e com o produtor da banda, cada um em sua prancha; o baterista Dan Peters, que tocou no Nirvana, tendo gravado um dos sucessos da banda, Sliver³, ficou na barraca da praia, bebendo, de forma extremamente profissional, caipirinha e cerveja ao mesmo tempo; o guitarrista Steve Turner foi o único que ficou no hotel e Mark Arm estava em uma prancha três vezes maior que ele, tentando passar por ondas que vinham de todos os lados, sozinho, indo pra longe de Ian e, sem se dar conta, sendo levado pela correnteza.
“Esse cara não sabe onde tá se metendo”, pensei e colei nele.
Comecei nadando do lado. Veio uma onda e eu a furei. Ele não. Olhei pra trás e ele estava se deitando de novo na prancha, tentando recuperar os metros perdidos.
– Você está bem?
– Yeah.
Voltei pro lado dele. Outra onda. Eu furei, ele não. A onda passou, olhei pra trás e lá estava Mark Arm tentando deitar de novo na prancha pra continuar remando e passar da rebentação, sem saber ele que, com o mar daquele jeito, o mar todo era uma rebentação.
– Você está bem?
– Yeah.
Voltei pro lado dele. Outra onda. Eu furei, ele não. Olhei pra trás e “você está bem?”, seguido de “yeah”, enquanto ele tentava deitar na prancha… Naquele mar, ele não conseguia ficar deitado na prancha, quanto mais em pé.
Uns vinte minutos se passaram, e, com certeza, em terra, ninguém nos via. Nem as potentes lentes das câmeras. A correnteza nos levou pra longe. Nadando, pensei em perguntar pra ele a velha piada “você curte Cobain?”.
Disse a ele que achava que não adiantava muito querer passar das ondas, pois não teria fim. Ele concordou.
– Aqui tá bom – disse ele.
– Yeah – disse eu.
– Você vai surfar? – ele me perguntou.
– Vou pegar jacaré – respondi.
– What?
– Body surf – expliquei.
– Oh, yeah, it’s good – disse ele.
– Yeah – disse eu.
– Oh, My God… – disse ele.
– Caralho – disse eu.
E uma onda assustadoramente enorme, já quebrada, sem nenhum aviso prévio,
espumando raivosamente, vinha em nossa direção.
Sei nadar, mas não sei nada sobre salva-vidas. Só tive tempo de dizer a ele:
– Man, abaixe o máximo que você puder – e me abaixei.
Eu, sem prancha, fiquei alguns eternos segundos embaixo da onda. Tive tempo de pensar que ali não tinha pedra, o que me tranqüilizou; que era só eu ter calma que ela ia passar, que eu ia subir à superfície e respirar; e “Meu Deus, Mark Arm, com a prancha daquele tamanho, deve tá se fudendo todo”. Lembrei de uma foto dele em uma revista Bizz que eu tinha, “mesmo nariz”, pensei de novo, e lembrei de Nick Cave, que em 1996 veio fazer um show em Salvador, mas que o cancelou no dia por causa de um vatapá que não lhe caiu bem. Imaginei o show cancelado por causa de Jaguaribe; pensei no suicídio de Kurt Cobain e na bandeira de alerta do Salva-Mar, que tremulava fortemente na praia, quando entramos no mar. No turbilhão de pensamentos, ainda ouvi o salva-vidas me dando bronca: “como é que você entra nesse mar com um gringo?”. Tudo isso me embolando embaixo da onda.
Já sem fôlego, batendo as pernas pra subir o mais rápido possível, finalmente alcancei o ar. “Râââââââââââââââââââââââââââ…”, dei aquela respirada desesperada e me vi rodeado de espumas que pocavam sem parar.
“Cadê Mark, cadê Mark?”, pensava eu, já tenso.
“Râââââââââââââââââââââââââ…”, disse ele, emergindo em seguida, com duas pranchas.
– Você está bem?
– Uou…
– Você está bem? – repeti.
– Yeah… a prancha que parece que quebrou.
Estava partida, mas ainda colada por um pedaço da fibra de vidro que, em outras partes da prancha, apontava suas garras cortantes. Aquela era a pior bóia pra ele se segurar. Em uma outra onda, poderia se embolar com a prancha e se cortar gravemente.
Mandei ele se soltar da prancha, mas ele estava tenebroso em ficar solto. Disse então pra que ele se segurasse nela, mas que pelo menos se soltasse da cordinha que ligava a prancha ao seu pé e implorei a Deus pra que alguém estivesse vendo a gente e entrasse no mar com uma prancha pra tirar ele do mar. Estávamos longe. Nadando seria difícil pra ele, ainda mais naquele liquidificador em que estávamos.
– Vocês estão bem?
– Yeah – disse Mark.
– IAN – disse eu.
– Vi vocês aqui sozinhos e… Caralho, a prancha quebrou?
Sem pensar muito, Ian deu a prancha dele pra Mark conseguir sair do mar. Eu e ele voltamos nadando. A prancha quebrada foi parar na areia.
Fomos andando até a barraca, onde contamos o ocorrido para todos, que nem imaginavam o que havia acontecido.

Entre caipirinhas, um vendedor de CDs piratas ofereceu uns discos. Tinha Raul Seixas. Todo mundo explicou o som de Raul, mas eles não quiseram comprar o pirata.
Perguntaram se a gente conhecia uma banda brasileira chamada Os Brazões. Spencer já tinha ouvido falar. Perguntaram de uma outra banda chamada Liverpool.
– Brasileira?
– Yeah.
Ninguém conhecia. Disseram que era dos anos 60 ou 70.
Gostavam também de Mutantes, Sepultura e Nação Zumbi.

Depois de um tempo, fui ao banheiro. Spencer estava usando. Fiquei do lado de fora esperando, quando ele virou e, sem interromper o xixi, disse, já sobre um leve efeito do limão com cachaça:
– E Marcos Braço, tá se divertindo?
Olhei pra responder e vi Mark Arm entrando no mar de novo, com outra prancha. Mas dessa vez ficou na beirinha.

3 Comments

  1. ÓTIMA HISTÓRIA.

    Só que duas coisas:
    O Mudhoney é o pai do grunge. Até meados dos anos 80 o Arm e o Steve Turner participavam de uma banda chamada Green River junto o Jeff Ament e o Stone Gossard do Pearl Jam. O Green River acabou em 87 e duas bandas surgiram – O mudhoney e o Mother love bone (semente do Pearl Jam)

    Os brazões é um grupo de rock psicodélico que em 1969 lançou um dos clássicos nacionais do gênero (Os Brazões). A banda também era o grupo de apoio da Gal Costa em seus shows.

    Quem se interessar pelo som da banda, taí:
    http://www.mediafire.com/?yvbw2aj5qbi

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