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HUGO MORAIS (RN): CONTROL

Quem foi Ian Curtis muita gente já sabe. Qual seu legado também. Ian apareceu em Manchester, uma cidade cinza, para dar vida a uma banda soturna, tal qual o céu de sua cidade. Da vida medíocre (para o próprio), do cotidiano como da maioria da população, da brincadeira inocente, a banda viu surgir fãs, gravadora, turnê, o sucesso. A viagem que levaria a banda ao topo não aconteceu. Ian se matou antes. É de tudo isso e muito mais que é composto o filme Control. A ficção sobre a vida do vocalista do Joy Division.

O filme, baseado no livro Touching from a Distance, da viúva Deborah Curtis, é carregado de drama. Pessoal, coletivo, mundial? Quantos Ian Curtis não existiram, existem e existirão? O último a ter o mesmo fim foi Curt Cobain. Muitos outros são acometidos anonimamente. E vão deixando para trás histórias incompletas que poderiam se transformar em lendas. Mas lendas também se fazem com a morte, com a especulação do possível futuro brilhante. É óbvio que não há futuro numa vida marcada pela necessidade de dar cabo rapidamente ao que incomoda. E muito mais que isso, ao que amedronta. Covarde? Pode ser, mas para tirar a própria vida há de se convir que é necessária muita coragem.

O Joy Division ficou marcado pelo nome, referência ao Nazismo, mas não a favor do movimento; pelas lendas em torno das histórias da banda (como uma que conta que a banda chamou peões de uma obra para assistir um filme pornô bizarro onde havia sexo até com enguias); pelas letras dramáticas cheias de referências a vida do vocalista; e claro, pela interpretação de Ian (com direito a dança epiléptica que influenciou até Renato Russo) e pela falta do resto da banda, que mau se mexia.

Da história de sucesso e fracasso pode se tirar alguma conclusão? Enfrentar os problemas? Sucumbir? Cada um que tire a sua. O filme, assistido no último dia de funcionamento da Velvet Café & Música no fim de dezembro de 2007, veio a calhar. Um fim anunciando outro. Muitos “pegando” na loja o que podiam para ter a lembrança fresca na mente. Eu “levei” um quadro da minha banda favorita, Ramones. Mas também se foram Dylan, Morrison… Ficou o vazio, de Manchester.

O controle muitas vezes leva ao ápice, do descontrole. As regras, as vezes, levam a destruição. Quando tudo parece bem, muitas vezes é o fim. E o fim muitas vezes um recomeço, New Order. Pra mim acabou com a corda no pescoço.

O filme? Ah, o filme é excelente, para quem gosta da banda e de cinema e para quem não gosta da banda e gosta de cinema. Roteiro simples, enxuto e redondo, bela fotografia, recriação incrível de Ian pelo ator Sam Riley de semelhança física assustadora. Muito de tudo isso é resultado da direção do fotógrafo Anton Corbijn, que inclusive fez várias fotos da banda. Agora é torcer para os cinemas daqui darem espaço para uma banda que influenciou tantas outras mundo afora. E continua influenciando.

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