Editorial

EDITORIAL DOSOL: GOSTANDO DA MESMA BANDAS DUAS VEZES

mercenarias
Foto: será que era essa aí da foto? Mercenárias!

Esse mundo de meu Deus é muito doido. Num dia você acha que sabe tudo, no outro já tem certeza que não sabe de nada e assim as coisas vão se desenrolando. Hoje quero comentar com vocês um assunto que chamou minha atenção quando você reflete sobre seu trabalho. Bandas e artistas são figuras sensacionais né não? Fazem coisas geniais, alguns tem o caráter duvidoso, outros são figuras humanas incríveis mas péssimos artistas e é exatamente aí que mora a graça de se trabalhar com música. A infinidade de personagens que agente encontra estrada afora. Aproveito para contar histórias sobre como gostei da mesma banda duas vezes e de maneiras diferentes.

Num jantar informal durante a Feira da Música do Ceará no incrível Dragão do Mar, Eu, Sérgio Ugeda (Tronco/Debate), Zimmer (Cassim&Barbária/Floripa Noise), Zé Flávio Jr (jornalista) e Alex Antunes (também jornalista) conversávamos sobre música, mais precisamente sobre o rock paulista dos anos 80. Comentei com Alex que um dos primeiros shows que vi na minha vida foi o das Mercenárias – uma das principais formações do rock underground paulista nesta época.

Eu amava aquele som, ouvia todos os dias bem alto. Não devia ter mais que 12 ou 13 anos. Morava em Belém e ouvi falar que a banda tocaria por lá em algum momento. Comecei a zanzar pela cidade atrás de flyers ou cartaz do show até que achei um. Improvável naquela época uma banda sair do underground paulista para tocar em Bélem do Pará. O fato é que o dia do show chegou e sai de casa escondido dos meus pais para presenciar a apresentação. Fingi que ia jogar um torneio, peguei o disco das Mercenárias e rumei pro evento (que era quase 30km de onde eu morava).

Não deveria ter mais que 50 pessoas assistindo o show. E uma coisa me chamou muita atenção: as músicas estavam brutalmente diferentes do que eu ouvira no meu LP. Estava tudo absurdamente mais rápido, gritado e brutal. Fiquei muito mais empolgado com a banda ao vivo e quando terminou o show saí correndo pra falar com as artistas e autografar o meu vinil (que infelizmente não tenho mais).

Fiz um comentário bem, adolescente para a guitarrista do tipo: – Nossa como vocês tocam rápido ao vivo? Ela meio encucada respondeu com delicadeza dizendo que não achava tanto. Fui para casa feliz da vida e no outro dia de manhã lá estava eu ouvindo as Mercenárias de novo. Ainda encasquetado olhei melhor os dados do disco e descobri o que estava errado.

Por algum motivo, a Baratos Afins, selo das paulistas, lançou o disco para ser rodado em 45 RPM, quando um disco normal era para ser ouvido em 33. Ou seja, amei as Mercenárias ouvindo as músicas com um andamento totalmente diferente do que elas realmente gravaram. Era outra banda. Quando passei minha vitrola para 45 RPM estrondou um punk rock rápido e gritado e as músicas que eu tinha amado de um jeito passei a amar mais ainda de outro. Houveram dias que eu ouvia dos dois jeitos o famoso disco só para comparar as nuances entre um take e outro.

Passados 20 anos encontrei a guitarrista das Mercenárias do backstage do Abril Pro Rock, tocaríamos no mesmo palco, eu com o Sinks e ela com o Wander Wildner e comentei o caso. Demos uns cinco minutos de gargalhadas juntos.

Resumo da ópera: o rock é a salvação sempre, mais rápido ou lento. Entende?

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