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EDITORIAL DOSOL: CASA DA RIBEIRA AMEAÇADA DE FECHAR AS PORTAS DEFINITIVAMENTE

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Foto: Debate (SP), tocando no Festival Dosol Música Contemporânea 2008 na Casa da Ribeira.

Por Foca

Quando viemos aqui mesmo no Portal Dosol com um editorial falando das dificuldades e da realidade de Centro Culturais como o Dosol (para relembrar leiam aqui) muitos acharam que era balela, chororô ou uma ameaça falsa para atrair atenção de mídia e público. Mal sabem essas pessoas que continuamos ameaçados sim, porque ter um espaço de música autoral independente e particular dentro de Natal é praticamente uma utopia.

Toda essa introdução é para dizer que a Casa da Ribeira, nosso vizinho mais importante, está seriamente ameaçada de fechar as portas definitivamente, mesmo sendo reconhecidamente, uma das casas e espaço mais espetaculares para se fazer cultura do Brasil. E eu conheço muitos lugares, acreditem.

A que ponto chegamos? Vale a pena gerar espaço público (sempre esvaziados) em vez de incentivar a inicitiva privada com financiamentos, editais e outras ações? Centro Cultural tem que ser do poder público para funcionar? São muitas questões envolvidas. Continuamos nossa batalha com o Centro Cultural Dosol e vamos batalhar para que a Casa da Ribeira continue viva e em pé. Segue enorme reflexão sobre a Casa da Ribeira feita por seus diretores, Gustavo Wanderley, Henrique Fontes e Edson Silva.

Mercado cultural, auto-sustentabilidade, Leis de Incentivo à cultura, formação de públicos, financiamento à cultura, indústrias criativas, desenvolvimento, formação artística, eventos, turismo cultural, educação & cultura, diversidade,…

Esses são alguns dos temas pertinentes à realidade de um centro cultural, ou de um trabalhador de cultura, no Brasil. As questões relacionadas à cultura ecoam numa malha muito densa, com direções opostas, avessas e contraditórias. Do mercado financeiro ao capital simbólico. Da eficiência administrativa e auto-sustentabilidade à criação de demandas. Da força de trabalho, emprego e renda às oportunidades educativas que possibilitam a expansão de liberdades.

A Casa da Ribeira vive, hoje, de perto, esse paradoxo!

Com oito anos de funcionamento, entre altos e baixos, estamos numa das melhores fases de nossa meta enquanto instituição. Estamos mais afinados com nossa verdadeira visão de ONG que somos e alinhados a valores que nos são muito caros. Desenvolvemos, por 3 anos consecutivos, o projeto ArteAção, em parceria com o Instituto Ayrton Senna e COSERN.

São ao todo mais de 110 jovens participantes. Acabamos de articular uma rede de artes visuais no Nordeste com o programa Convergências e estamos propondo o Primeiro Encontro de Centros Culturais Independentes do Nordeste a ser realizado em Agosto. Estamos com o Projeto Cena Aberta aprovado nas Leis de Incentivo à Cultura que, uma vez plenamente captado, beneficiará 24 grupos ou artistas, das áreas de música, dança e teatro e abrangerá mas de 32 mil espectadores. Ganhamos ainda o Edital BNB cultural, para montagem do “Gesto,Cascudo” com o Grupo Casa da Ribeira de Teatro e ainda o Edital Ponto de Leitura, quando adicionaremos ao nosso acervo literário mais 500 títulos. Todos esses projetos corroboram com nossa meta de “sermos” um Centro Cultural de Educação e Cultura, dedicado ao desenvolvimento humano através da arte!

Entretanto, com toda essa produção de projetos e programas, não temos sequer o recurso necessário ao pagamento das contas de água e luz, às quais temos três vencidas! Ou o pior, o recurso para o pagamento de nosso quadro de funcionários.

São cinco pessoas apenas, acreditem!

Não é absurdo, beirando ao cômico, que estejamos nessa situação?

“Como, com tantos projetos, esses “meninos” ainda estão reclamando de falta de dinheiro?”, perguntaram alguns. “Deve ser por falta de gerenciamento!” Disse outro no corredor.

Essa escrita burlesca, acima, serve para intensificar algum espanto necessário à ordem da realidade.

O que acontece é que todos os projetos acima descritos não permitem a manutenção da estrutura que é necessária para que eles aconteçam. Ou não possuem recursos para esse fim. Geram um outro tipo de capital que não permite pagar contas de telefone, folha de funcionários, internet, água, luz, etc… Eles mobilizam e permitem a constituição de um capital simbólico.

Engendram uma rotina de fazeres sensíveis e educativos, que representam muito no desenvolvimento e fortalecimento de subjetividades, no entanto esse capital está distante das rotinas bancárias. Para alguns um negócio furado, já que não tem capital, não tem uma demanda específica, e ainda necessita de capital para fortalecer as demandas! Uma conta que não fecha!

Estas estratégias necessitam de recursos e investimentos para consolidar mais apreciadores de artes que, a longo prazo, poderão facilitar o capital necessário da cadeia produtiva de cultura. Se por um lado a Economia da Cultura necessita de investimentos como qualquer outro setor, por outro lado, ações de fomento, democratização e formação, não objetivam lucros, ou excedentes, porque as ações são quase sempre subsidiadas.

Desta forma estamos novamente no hiato, entre a ação e as dívidas. Entre os projetos e o fechamento do Centro Cultural.

Nesse entre-lugar. Seria o limbo?

Sem mantenedores, sem projetos que financiem as atividades de manutenção, com uma política cultural que financia eventos e grandes projetos. A Casa da Ribeira está, novamente, inviável. São dívidas que se acumulam e que podem paralisar, a curtíssimo prazo, nossas atividades.

A Casa da Ribeira está no final de uma cadeia produtiva. Para que o artistas cheguem à Casa há uma complexa rede de esforços. São ensaios, transporte, suor, reflexão, tecidos, botões, figurinos, madeira, cenário, iluminadores, panfletos, cartazes, divulgação, Casa, público, vendedores de balas e pipoca, aplauso ou vaia.

O que acontece é que hoje por uma paralisia geral, o palco da Casa fica ocioso, sendo ocioso não gera recursos, sem recursos, não geramos demandas! Porque em cultura cria-se demandas! Não é apenas empacotar um produto e disponibilizar pronto para venda, até porque a valoração e “necessidade” do produto cultural não é a mesma do produto alimentício, por exemplo.

O que fazer? Fechar novamente as portas? Fazer a política de pires na mão? Dar aulas a luz de velas? Articular uma rede de artistas para que se fortaleçam e possam refletir uma proposta de política cultural para a cidade? Recuperar o espanto?

Sabemos o que queremos, temos propostas, temos patrocinadores para os projetos, mas não conseguimos manter as atividades. No entanto, os projetos educativos e de articulação no Nordeste e no Brasil, continuam somando resultados e continuamos sendo citados como exemplo no cenário nacional.

Eis o paradoxo da nossa continuidade. Será que um Centro Cultural Independente que realiza ações de Educação e Cultura com repercussão em todo o Brasil tem lugar em terras potiguares? Seriamos realmente necessários? Editais para manutenção de Centros Culturais seriam utópicos?

Ficamos neste paradoxo e mais uma vez sugerimos um diálogo. Não queremos apontar culpados, mas talvez compartilhar responsabilidades e refletir profundamente a necessidade de Natal ter um Centro Cultural Independente de Educação e Cultura.

3 Comments

  1. Falando em recuperar o espanto… É espantoso como não há nenhum comentário aqui. Algum resquício de indignação por aqui? Toc, toc…

    Me apresentei na Casa da Ribeira em 2008. Minha banda (O Garfo, de Fortaleza) foi escalada para a programação da última etapa do Festival DoSol. E é fato que em poucos lugares pelo Brasil você tem a oportunidade de tocar com uma banda alternativa em condições tão legais.

    Não porque a Casa seja grandiosa, ostentadora, exagerada em tamanho, e sim porque possui o conforto e a estrutura na dose certa para valorização do artista e bem estar do público. Agora, enquanto nós artistas não tivermos a decência de conhecer (e reconhecer) o valor de cada palco que pisamos, ficaremos sempre à mercê das possibilidades de alguns heróis que ainda se submetem a manter espaços culturais.

    No entanto, é aquela coisa: para todo mundo é bem mais fácil cair (novamente) no clichê de reclamar depois porque não tem.

  2. A Casa da Ribeira é um espaço realmete extraordinário, díficil de encontrar na maioria das cidades do país com o mesmo porte de Natal, como foi citado no texto. Já havia lido o texto no dia de sua publicação, fiquei indignado e acredito que não fui o único. Não entendi bem qual o problema que faz com que a casa não consiga cumprir com os pagamentos mensais de suas contas. O que está fazendo com que o palco fique ocioso boa parte do tempo, não existem projetos (artistas) querendo utilizar desse espaço ? Particularmente, não sou a favor que as leis que beneficiam os projetos da casa sejam utilizados para pagar sua manutenção, acredito que isto abra um espaço para que existam irregularidades e pessoas com más intenções utilizem do fato para benefício próprio (não estou dizendo que isto vai acontecer e nem muito menos neste caso específico). Os Editais aprovados beneficiam alguém, estas pessoas não possuem o interesse em formular projetos que forneçam um retorno para a Casa para que ela permaneça ativa ?

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