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DICA DE FILME: A ERA DA INOCÊNCIA

A Era da Inocência, o mais recente filme do diretor canadense Denys Arcand, pode não funcionar para aqueles que têm como referência de sua obra As Invasões Bárbaras. Um filme, aliás, que não virou pop, mas foi aonde Arcand mai se aproximou do equilíbrio entre a reflexão do cinema de arte e o entretenimento (mais pela gancho dramático da história) do grande circuito. 

Por que? Porque enquanto n’As Invasões a história pesarosa de Rémy servia como pano de fundo para Arcand tecer suas considerações sobre o capitalismo e as agruras subjetivas do mundo moderno, em A Era da Inocência ele se descola desse pano de fundo humanista e solta seus petardos ideológicos contra o mesmo capitalismo, o mais cruel ainda mundo moderno, com um sarcasmo que aproxima o filme das pantominas teatrais.

Não há espaço para a dor, pelo menos a objetiva d’As Invasões. Assim, ele dá uma guinada ao contar a história de Jean-Marc LeBlanc, vivido por Marc Labréche, um burocrata responsável pelo setor de ouvidoria do governo de Quebec, que é, numa analogia forçada, como se Sam Mendes tivesse injetado política na história de Lester, o protagonista de Beleza Americana.

LeBlanc cria em torno de si fantasias que o livram de todo mal, representado pela doentia dedicação da mulher ao trabalho, pela apatia de suas filhas em relação ao pai, pelo tédio do seu trabalho que na prática cria mais problemas ainda para quem o procura e todas inquietantes prisões a que qualquer ocidental minimamente inserido no mercado de trabalho está sujeito, como chefes opressores.

Tanta agonia finda (e Freud deve explicar isso muito bem) num anseio sexual incontrolável, que é na mesma medida fuga e consolo. O problema do filme se dá quando o sarcástico Arcand toma as rédeas do seu discurso sisudo, dando lugar a uma ideologização primitiva de que a modernidade e o capitalismo têm por oposto o isolamento bucólico.

O engano desse ponto de vista fica latente diante das observações que a mulher de LeBlanc faz sobre o mesmo, no momento em que ele decide sair de casa e deixar para trás tudo que o oprime. Ela lista, um por um, os motivos que a levam a, como ele supõe, ser um produto mimetizado do mercado. Mas e ele? Que medida de culpa teria nisso tudo? São perguntas que Arcand pode responder num filme continuação, como fez com os seus dois títulos anteriores.

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