Coberturas, Resenhas

CRÔNICA: CARLOS FIALHO ASSISTE GREEN DAY EM MADRID

green day

Por Carlos Fialho

Eu gosto do verde. Da cor verde. E não se trata de consciência ecológica ou simpatia gratuita. Minha predileção por essa cor tem duas razões bastante simples: sou consumidor e fã da cerveja holandesa Heineken e quando eu tinha 15 anos ouvi um certo som que fez muito bem aos meus ouvidos em meio à confusa e cheia de sobressaltos adolescência na medíocre classe média (e por que não dizer mediana?) natalense. Era um som, digamos assim, “verde”, contagiante e, como não poderia deixar de ser, punk. Naquele já longínquo 94 do século passado, ano de muita efervescência musical, tive a consciência que só o Punk salva. Amém!

O ano do tetra foi relembrado outro dia aqui mesmo na Digi na ótima crônica de Hugo Morais a respeito dos 15 anos do CD “Da Lama ao Caos” de Chico Sciensce e Nação Zumbi. O texto me fez voltar no tempo para aquele ano e foi como se eu vivesse tudo de novo. Além do CD da Nação, teve o acústico do Nirvana (e do tiro na cabeça do Kurt Cobain), o primeiro disco dos Raimundos, a explosão do Oasis (“Wonderwall”, “Don’t look back in anger”), o surpreendente “Usuário” do Planet e o “Smash” do Offspring, só pra citar alguns de memória. Gosto de todos, mas para mim talvez o mais divertido que foi prensado naquele ano tenha sido um com encarte bonito em que havia uma ilustração bem bacana de uma cidade e uma explosão, o “Dookie” do Green Day.

Som vibrante, alegre, moleque, urgente e pegajoso até que invadiu meu toca-CDs e segue tocando alto nos fones de ouvido até hoje. Faixa por faixa era um disco quase todo composto por hits e meio que me salvou de um caminho muito perigoso. Entre os 13 e 17 anos o adolescente vive aquele período de tomada de decisão, busca de uma identidade, formação de um caráter e de uma personalidade. As escolhas que a gente faz nessa fase da vida podem marcar para sempre nossa passagem por este mundo. Por isso eu me encontrava em um terreno bastante perigoso, pois o Colégio das Neves onde estudava era uma verdadeira incubadora de idiotas. O nível educaional era muito bom. Tínhamos bons professores e o conteúdo, tirando os dogmas medievais que nos eram repetidos como mantras, produziu alguns dos melhores e mais bem sucedidos adultos de minha geração. O problema era a mentalidade reinante entre os meus colegas, uma gente muito simpática, mas careta, preconceituosa e adepta de uma estupidez corrosiva e mais contagiante que vírus da gripe.

Num ambiente como esse, se você não reza segundo a cartilha reinante da coletividade, o que para um jovem aluno Neves significava ir a shows de Axé, saber dançar forró e frequentar os pagodes de fim de semana, pode estar condenado à uma rápida morte social ou, muito pior, ganhar reputação de excêntrico o que, aliás, dá no mesmo. Eu gostava de rock. Até me esforçava (não muito) para ser igual aos outros, mas não dava. Paguei um preço por minhas opções. Meus amigos achavam exótico, as meninas da GRD nem olhavam pra mim e os que não me conheciam tinham a sensação de que era melhor continuarem assim. Até que descobri em outras salas e séries, alguns como eu. Minha solidão terminou quando percebi que havia um pequeno nicho roqueiro na escola. Fiz amigos como Fernando Filho, Thales Lago, Caio Vitoriano, Leonardo Medeiros, Diogo Salim, Vítor Duarte e juntos criamos nosso próprio gueto, protegido da intolerância e hostilidade dos demais.

O Green Day, Offspring e muitos outros conjuntos roqueiros gringos e também brasileiros proporcionaram minha catequese, pavimentano um caminho para que eu conhecesse outros sons, bandas mais pesadas, ritmos mais frenéticos. Estava salvo. Só havia um problema: possivelmente eu nunca teria a oportunidade de ver meus dois grupos californianos ao vivo. Numa cidade em que Durval é rei e todos os puxadores de bloco ganham títulos de cidadãos locais, deveria haver alguma lei que mantinha os shows internacionais a milhares de quilômetros. Felizmente, os anos mostraram que eu estava errado.

Em 2004, o Offspring tocou em Recife. Em 2009, foi a vez do Iron Maiden fazer o mesmo. Vez por outra também rola um concerto imperdível em São Paulo ou Rio e, com um pouco de economia e planejamento, dá pra marcar presença. Mas ainda faltava o Green Day. Faltava, pois por uma dessas jogadas do destino, acabei vindo passar um período de estudos fora de Natal e haveria um show dos californianos aqui onde estou morando.

Quando chegamos à fila do evento, gigantesca, dando voltas no quarteirão, a primeira coisa que vi foi a multidão de camisetas pretas que passavam uma mensagem clara: eu estava em casa. Depois percebi que a maioria era de adolescentes, ou pelo menos adultos bem jovens que eu. Senti-me o tiozão do Rock. Aquela gurizada conheceu o grupo certamente através do American Idiot. Ao percorrer a extensão da fila, comecei a perceber representantes de minha época, facilmente identificáveis pelas primeiras rugas, precoces pelos grisalhos ou proeminentes calvícies. Fiquei imaginando se a banda foi tão importante para eles, na formação de seus gostos musicais, quanto foi pra mim. durante a espera, muitos senhores e senhoras que passavam, paravam um pouco para nos perguntar o propósito de uma multidão de jovens como aquela disciplinadamente alinhados, ordenadamente a espera de algo certamente grande. “Vamos a um concerto de Rock”, eu respodia todo sorrisos.

Até que, finalmente, teve início o espetáculo: público ensandecido, devotado e de alma lavada. Inclusive eu, pois finalmente podia ver Billy Joe, Tré Cool e Mike Dirnt numa performance memorável. Quase 3 horas de clássicos (“Basket Case”, “She”, “When I come arround”), canções históricas (“Minority”, “American Idiot”, “Boulevard of broken dreams”) e baladas (“Good riddance”), além das novas do “21st Century Breakdown”. Tudo bem orquestrado com uma produção alucinante, muita energia na plateia e ótima presença de palco.

A data de 29 de setembro de 2009 entrou para a história, pelo menos para a minha história. Foi um bom dia, colorido com contornos verdes, regado ao sabor amargo de muita cerveja e cada vez que lembro do concerto se anuncia um largo sorriso em meu rosto. O que aconteceu naquela terça-feira foi uma celebração aos 15 anos que se passaram desde que eu ouvi o Green Day pela primeira vez. A alegria que eu exibia no show não era apenas de um fã que via ao vivo a performance de seus ídolos, mas de um adulto que se descobria muito feliz pelas escolhas que fez.

8 Comments

  1. Eu também passei praticamente por esses percaussos na adolescencia, só muda o colégio, salesiano em vez de neves. Infelizmente, na época, não encontrei um nincho para me “resgatar” do mar de mediocridade que imperava, mas hoje parece que as coisas estão pior ainda entre os adolescentes atuais. Que o rock salve a todos, como me salvou.
    Feleizmente encontrei minha turma, em minha terra natal: Recife, fui morar lá em 95, Manguebeat no auge, Chico & Nação, fazendo apresentações nos colégio particulares, imagina, se isso iria rolar aqui, é mais facil o “Grafith” rolar nos colégios daqui rsrs. Descobrir toda cena roqueira daqueles tempos, fui a shows do Devotos no alto José do Pinho, apresentações memoráveis do ABRIL PRO ROCK, rock no carnaval, no Recbeat. Tenho esperança, que aqui em Natal ainda teremos um cena como aquela, pelo menos gente como Foca, continua na batalha, movendo as engrenagem, que faz o Rock, viver, Forever.

  2. Que historia irada velho, Me identifiquei muito com ela, irada mesmo.
    Que bom ver que existem sobreviventes espalhados por ai, que sairam da decadencia daquilo que chamam de “musicas” para o que realmente é bom e que forma opinião.

    É por isso que já tenho dito:

    “Quem com FORRÓ fere, com METAL será ferido!”

    Rsrs.

    Sucesso a todos.

  3. Decente texto, Fialho. Principalmente o último, e reflexivo, parágrafo. Não sou de replicar comentários, mas faço uma observação ao que o jovem Gélikom escreveu. Quando era da escola rolva um circuito de bandas de estudantes (que Foca era incerido e tudo), não era a Nação Zumbi, lógico, mas fez a alegria de geral tocando covers de mil gêneros (que contribuiu pra formação cultural de muitos jovens). E acho fudido o Grafith tocar nos colégios, se rolasse, é música local e indepentende e pronto. É o que nos temos produzido. Quer que sua banda de rock, pop ou eletrônico toque na sua escola faça sua correria torne-a popular viabilize a história que você toca, por exemplo, eu toquei. E olha que não havaia myspace, orkut, “tuíter”, bluetooth.. rs. Todo mundo escuta tudo hoje, MPB, Rock Metal. Mas isso é pano pra outra manga de Fialho.

  4. Caio, infelizmente não cheguei a ver essas bandas de estudantes independentes, certamente já estava morando em recife, quando ocorreram tais shows, mas é isso mesmo que almejo ver. Bandas locais fazendo e acontecendo. Cada vez mais. O movimento já começou, só temos que alimentar a fornalha.

  5. Texto muito legal. Eu, como vários, me identifiquei muito.

    Como disseram aí, também não tive a sorte de fazer um gueto do rock. Sempre foi eu e eu. Mas não me arrependo nunca.

  6. É cara… Eu peguei o Greenday na era Nimrod, mas comprei 1o o Dookie, Trilhei o caminho excentrico e oj sou feliz… Ainda vejo um som deles. Ahhh… Offspring eu vi.

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