Coberturas, Festivais e Shows

COMO FOI? NO AR COQUETEL MOTOLOV (RECIFE/PE)

Por Bruno Nogueira

Essa cobertura deveria ter sido publicada, originalmente, no jornal A Tarde. Até agora não tive resposta de porque não saiu. Aqui ela segue em versão maior, com alguns comentários em primeira pessoa também.

Crescer é um processo sempre complicado. Sempre penso nisso, quando penso no festival No Ar Coquetel Molotov. Para que essa sétima edição, que teve sua etapa Recife entre os dias 24 e 25 últimos, fosse também um sinônimo de fôlego para o evento, o mesmo precisou dar passos estratégicos para trás. Voltou para o Teatro da Universidade Federal de Pernambuco, com capacidade de 500 pessoas a menos que o anterior do Centro de Convenções, onde aconteceu ano passado. A programação, entretanto, garantiu que o volume a menos não fosse equivalente a diversidade proposta pelo festival.

Os patrocínios da Petrobras e Vivo permitiram que o festival tivesse sua edição mais histórica. Talvez demore de seis meses ou mais para que a passagem da lendária banda Dinosaur Jr. seja totalmente compreendida pelo público local. Com um repertório montado com carinho para os fãs, a banda tocou sucessos mais antigos como Out There (de 1993) e até sua versão para Just Like Heaven, do The Cure. Entre danças, pulos e olhares fixos nos longos cabelos brancos do vocalista J. Mascis, teve até quem chorou.

“Eu vim do Paraná, essa banda é a trilha sonora da minha vida, é importante demais para mim”, desabafava em lagrimas Luis Augusto, 32, que junto com a namorada não saiu da frente da parede de seis amps de guitarra que descarragavam 115 decibéis no público. Quase o mesmo volume do show que o Motorhead fez na cidade, com a diferença de ser um espaço bem menor. A partir da quinta fileira de cadeiras, era difícil ouvir qualquer outro instrumento ou mesmo voz, de tão alto.

Na mesma noite, a banda de Joseph Tourton – que chamou atenção pela primeira vez como revelação do festival – fez a estréia de seu disco em uma das melhores apresentações da noite. Com bastante energia no palco, o som instrumental deles ganhou vida com a participação especial de Vitor Araújo no piano. De revelação se transformaram em aposta de que, certamente, é um nome que deve aparecer em bastante programações de festivais no próximo ano. A banda perdeu a única coisa que os impedia de crescer, que era a gigantesca timidez no palco.

O show do Joseph Tourton foi importante para a cidade por diversos motivos. No final dessa primeira decada, é um suspiro de esperança de que alguma banda começou, sobreviveu e também cresceu na primeira década do Recife. Por um instante, essa seria uma década totalmente perdida em relação a cena rock, o que é fato impressionante em uma cidade que teve a década de 90 tão fundamental na música brasileira. O fato deles serem ainda tão jovens só contribui com a banda na fase de entrar em roubadas para rodar bastante o país e se tornar alguém além de um grupo local. Assim como a Volver – única que é exceção a tudo que falei – a Joseph Tourton virou retrato oficial de nossa geração.

Ainda na lista de melhores atrações estão os suecos do Miike Snow, que se apresentaram na primeira noite. Indie rock com fortes batidas eletrônicas, foram embaixadores da catarse no público, que ficou hipnotizado pelas fortes luzes que mal deixava enxergar quantas pessoas estavam tocando no palco. Eleitos pela mídia especializada como um dos melhores performances do ano, eles mostraram em pleno Nordeste que o hype nunca vêm por acaso.

Zé Cafofinho. Um dos melhores shows do festival

A primeira noite do Coquetel Molotov também foi a da apresentação de Otto, que trouxe o maior público ao teatro. Tanto ele como Zé Cafofinho foram as melhores surpresas, por mostrar que fora de seu ambiente habitual – que costuma de ser de público mais velho e eventos públicos – eles também mandam muito bem. Otto já tinha seu jogo ganho antes do show, graças ao elogiado novo disco e trilha em novela global. Mas, para Cafofinho o desafio foi ainda maior, por ser o primeiro a tocar na noite, o que tornou a conquista ainda mais saborosa ao ouvir o coro do público cantar suas músicas.

Em todas as sete edições, essa foi a que teve menos erros de escalação. As decepções, de fato, foram apenas duas. A francesa SoKo, que chegou recheada de promessas e fez uma apresentação fraca, pontuada por reclamações dela no palco e também do público. Mad Professor, um dos país do Dub, também deixou bastante a desejar. Despejou um monte de remixes, mas talvez pelo ambiente do teatro, uma considerável parte do público preferiu usar sua trilha sonora para dar aquela circulada. Mesmo assim, o ruído causado está longe de ameaçar a nota máxima para o No Ar Coquetel Molotov nesse ano.

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