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COMO FOI? BOB DYLAN NO RIO DE JANEIRO

Presença ilustre aqui no Portal Dosol. Segue cobertura/opinião sobre o show de Bob Dylan no Rio de Janeiro feita pelo música, compositor e escritor Braúlio Tavares. Lá vai!

Por Bráulio Tavares 

Bob Dylan subiu ao palco da Rio Arena, na noite do último sábado, envergando seu uniforme habitual nos últimos shows: um horroroso jaquetão cinza-alumínio, calças pretas e um chapéu preto da aba larga e copa baixinha. Está cada vez mais parecido com Vincent Price. O primeiro número foi uma levada arrebatadora que pôs todo mundo de pé, “Rainy Day Women n. 12 & 35”, talvez em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Seguiram-se duas canções de amor na sua época de ouro, “It ain’t me babe” e “I’ll be your baby tonight”, após o que veio o clássico “Masters of War”, num arranjo pesado, dramático, ominoso. O rock balançado retornou com “The Levee’s Gonna Break”, após o que seguiram-se canções lentas recentes: “Spirit on the Water”, “Things have changed”, “Workingman Blues”.

Outra canção antiga com arranjo irreconhecível, mas eficaz, foi “My Back Pages”, com o seu refrão definitivo: “Ah, mas eu era muito velho naquele tempo, hoje estou mais jovem”, uma canção que Dylan gravou quando tinha 23 anos e que canta com vigor redobrado agora aos 66. A esta, seguiram-se músicas que deram o tom ziguezagueante do show – rocks pesados que levantavam a platéia, seguidos por canções lentas. Foi o que se deu com “Honest to me” (do CD “Love and Theft”), num arranjo que lembrou o “Instant Karma” de John Lennon, ao qual sucedeu a suave e melódica “When the Deal Goes Down”. Em seguida, um dos melhores números da noite, “Highway 61”, conduzido por três guitarras estridentes (Dylan passou o show todo ao piano elétrico, com exceção das primeiras duas ou três músicas), que deu lugar a “Nettie Moore”, uma canção melancólica do disco novo, “Modern Times”.

O fecho do show foi novamente para cima, com o rock alegre de “Summer Days”, que fez uma parte da platéia romper umas barreiras de contenção e correr para a frente do palco, tapando a visão de quem estava nas cadeiras especiais ao nível do chão. Todo mundo ficou de pé, a banda atacou “Like a Rolling Stone”, e não é preciso dizer mais nada.. O grupo saiu do palco, retornou uns dez minutos depois para executar a empolgante “Thunder on the Mountain” (faixa de abertura do CD novo) e encerrar com “Blowin’ in the Wind”.

Dylan é um dos artistas mais brechtianos da história do Rock. Não faz concessão alguma. Sua banda é fleumática, não dança, não rebola; vestem-se todos como detetives particulares de filme policial, ternos escuros, gravata frouxa, chapéus de feltro escuro. Lembram atores do Berliner Ensemble. Dylan não olha, não sorri. Quando o entusiasmo está grande, ele joga um banho de água fria. A galera mais jovem está habituada com cantores que fazem acrobacias aeróbicas, que “se relacionam” com a platéia o tempo todo, conversam, fazem trejeitos. Se Dylan fosse repentista, seria da escola de Ivanildo Vila Nova: rosto impassível, nada de gestos, nada de teatrinho. A Voz e o Verso. Assim como quem diz – o Martelo e o Prego.

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