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COBERTURA – FESTIVAL VIRTUEMÚSICA (PE)

Festival Virtuemúsica – Recife (PE) – Por Hugo Montarroyos

“Recife não é uma cidade roqueira”. A frase, de Bruno Souto, da Volver, coube como uma luva ontem, durante a primeira edição do festival Virtuemusica. Fresno, Autoramas e Ludov não levaram sequer mil pessoas (longe disso) ao pátio externo do Armazém 14. Resultado: um vazio imenso, algumas bandas que ainda não tinham maturidade o suficiente para subir num palco, atraso de duas horas no início dos shows e uma total falta de respeito da produção com as bandas Martinez (PE), Fóssil e Mormaço (PE). As duas primeiras não tocaram porque simplesmente não houve tempo para que elas entrassem em cena e mostrassem seu som. A Mormaço, a mais interessante entre as bandas pernambucanas, acabou tocando depois das quatro da manhã, para familiares, amigos e alguns abnegados (como nós) que toparam a aventura de vê-los em tal horário.
A produção não quis definir a ordem de entrada das bandas, para prender o público desde o início. Ou seja, ninguém, nem as próprias bandas, sabiam ao certo em que horário tocariam, o que acabou gerando o caos. Coisa de produção inexperiente mesmo.

Quem não foi deixou de presenciar o surgimento de dois promissores nomes da música pernambucana: o inteligentíssimo Tacabos de Guevara e o competente Mormaço. Perdeu de ver a histeria feminina provocada pelo Fresno, o bom show do Ludov e a tristeza que foi presenciar a melhor banda do Brasil hoje, os Autoramas, tocar para tão pouca gente.

Do começo: com o atraso da programação, acabamos também nos perdendo e nos dispersando para fazer hora até os shows começarem. Acabamos perdendo a apresentação da cearense Encarne.

Na seqüência (os palcos eram ladeados, o que acabava dando uma “agilidade” maior entre o shows) entrou a primeira banda pernambucana da noite, a Enffase. Transbordando nervosismo, insegurança e imaturidade, a banda despejou seu “hardcore” mais do que verde, com destaque para a “impagável” (no pior sentido da palavra) “A Roda Vai Rodar”. Ficou nítida a impressão de que ainda precisam de muito feijão com arroz para encarar um palco.

Depois veio o pastiche do Rondó, que de início parecia um subproduto (já?) do Mombojó. Depois não tiveram a menor vergonha na cara em mandar um cover de “Mania de Você”, de Rita Lee, e ficou no ar a sensação de uma banda que faria fácil parte da programação da Nova Brasil FM. Constrangedor.

O nível começou a melhorar de fato com o Bon Vivant, que mostrou um pop competente e maduro, ainda que a coisa mais memorável de seu show tenha sido a cover de “Last Nite”, dos Strokes. Mas mostrou ser uma boa banda com um belo potencial a ser explorado.

Quem também esbanjou competência foi a Porão GB, em show corretíssimo. Conseguiram driblar os problemas de som (que foram muitos), mostraram uma experiência fora do comum para gente da idade deles, e teve o público (que era literalmente deles) nas mãos o tempo inteiro. Não gosto do estilo, mas sei reconhecer um bom show quando vejo.

Depois foi a vez da melhor surpresa da noite, a Tabacos de Guevara. Com nome que remete ao hardcore podreira, a banda faz um som bem mais elaborado do que isso e com letras espertíssimas, como “O meu amigo invisível não gosta de mim”. Não é todo dia que aparece uma banda que se diz influenciada pelo clássico “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdan (aleluia! roqueiros também apreciam boa leitura) e tem peito de dizer que se inspiram nas construções literárias de Chico Buarque. O resultado são coisas inclassificáveis e muito boas, como “Banda de Marcha de Manhattan”, de um humor sofisticadíssimo. Olho neles!

A carioca Ramirez fez um show onde imperou o profissionalismo, e foi a primeira a deixar a entender que as coisas mudaram bastante de uns anos pra cá. Anunciaram uma cover que, segundo eles, era de uma banda “óbvia e impossível de fugir”. Pensei na hora: “lá vem Ramones”. Mandaram então, para minha surpresa, um Green Day que foi tão aceito (ou mais) do que a banda de Joey Ramone. Os tempos e os valores, definitivamente, são outros.

A potiguar The Sinks fez um dos melhores shows da noite. Power trio invocado que sabe dosar camadas de sujeira com momentos mais suaves, a banda soube usar muito bem o palco, mostrou que seus integrantes têm experiência de sobra e abusou do velho rock de garagem gritado a plenos pulmões. E aí sim, finalmente, veio Ramones para estabelecer a ordem natural das coisas. Showzaço.

O Ludov tratou de fazer um pacto de comunhão e de catarse com seus fãs, gerando uma das apresentações mais bonitas da noite, embora a banda tenha errado bastante no palco. Nada que os fãs não perdoassem ou simplesmente deixassem passar batido. Depois do Fresno, foi a banda mais assediada da noite.

O Device foi uma das coisas mais constrangedoras que já vi na vida. Tentam ser ao mesmo tempo “podreira”, Nu Metal e Emo! Possuem partes gritadas (esgoeladas mesmo) com outras de vocais melódicos de uma desafinação sem igual. Bateu então aquela “síndrome da vergonha alheia”.

A noite era indiscutivelmente do Fresno. Uma histeria sem fim (meninas de menos de 18 anos e desmaiando era a coisa mais comum ali) para uma banda que tem a cara-de-pau de usar trechos de playback em suas músicas. O baixista batia palmas e seu baixo continuava “magicamente” a tocar. O som triplicou em altura no show deles, e o ritual de frenesi e transe feminino era mais interessante do que o próprio som da banda, que não sai daquele lugar-comum emo do estilo Baby (da Família Dinossauros): tudo na linha do “precisa me amar”. Algo que começou (em termos de letra) lá atrás, no próprio Rio Grande do Sul, com as geniais letras de dor-de-cotovelo de Lupicínio Rodrigues. Com o Fresno a coisa fica diluída e toda a poesia acaba dando lugar a centenas de frases de efeito sem o menor conteúdo. E tome grito histérico de adolescente em si sustenido! Meus ouvidos estão zunindo até agora…

Engraçado mesmo foi o Revigóroz . Banda que insiste no som dos anos 80, eles tiveram a capacidade de mandar uma versão em português para “Boys Don’t Cry”, do The Cure! O refrão? Virou “Ilusão, você partiu meu coração. Ilusão, chega de viver na solidão!”. Nem Amado Batista faria “melhor”…Duvida? O que dizer então de “Helena, diz que me ama, me leva para a cama e me faz sonhar”. E depois a fama de chato sobra pra mim…

O Autoramas tocou, literalmente, para cumprir contrato, e para quase ninguém, já na casa das três da manhã. Apesar do péssimo som, fizeram um show irretocável, que abriu com “Mundo Moderno” e teve seqüência com todos os hits e riffs ganchudos da banda. Sem falar no estilo Krafftwerk de se portar no palco. Show lindo testemunhado por poucas almas, pois o público do Fresno já havia retornado satisfeito (e sem voz) para a casa.

Sobrou para o Mormaço a árdua e inglória tarefa de tocar para umas trinta pessoas (entre amigos e familiares da banda) depois das quatro da matina, com o sol já raiando. Uma pena, pois o talento ali é visível: pegada bem Strokes, mas sem imitar o Strokes. Pose desencanada, mas sem demonstrar afetação. E um talento (já frisado aqui) que merecia ser visto por mais gente.

Infelizmente o saldo da noite foi negativo. Fóssil veio do Ceará para nada. E o Martinez também não pôde mostrar seu som por culpa única e exclusivamente da produção, que, assim como parte das bandas, mostrou-se amadora. Que os erros aqui não se repitam mais. Amém!

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