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COBERTURA DE SHOWS: FESTIVAL BOOM BAHIA (BA)

Por Luciano Matos (elcabong)

Um flashback não saudosista. Naquela noite do fim da década de 90 chegava a notícia que Tim Maia, o cantor da MPB mais rock da história, havia falecido. Em Salvador, a mesma noite reservava alguns shows marcantes de um dos principais eventos de rock que já aconteceram na cidade. Foi como se os quase dez anos que nos separava daquela segunda edição do Boom Bahia, se apagassem na memória e as noites dos dias de festival voltassem atualizadas em duas tardes e noites de dezembro de 2007. Num período em que o grande Tim Maia é relembrado com livro, especiais e tributos, um buraco no tempo parece eliminar por alguns instantes os dez anos de distância. E a terceira edição do Boom Bahia Festival, depois de várias promessas, se concretizou em duas das noites mais memoráveis do rock baiano nos últimos anos, como se fosse em plenos anos 90.

Se as principais bandas baianas de rock daquele final de década não existem mais, os principais integrantes delas continuam na ativa com projetos, muitas vezes, até superiores aos anteriores. Se nos dois “Boom Bahia” passados, realizados em 1997 e 1998, subiram ao palco bandas como The Dead Billies, Dr. Cascadura, Saci Tric, brincando de deus, Arsene Lupin, a fenda no tempo colocou músicos dessas mesma bandas outra vez no palco de um Boom Bahia. Mais maduros dez anos depois, eles aparecem em bandas como Retrofoguetes, Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta, Berlinda, Cascadura e Theatro de Séraphin. A brincando de deus não tocou, mas apareceu em integrantes espalhados em algumas bandas e em dois momentos memoráveis que você vai ler alguns parágrafos abaixo. A Arsene Lupin estava na sonoridade que um ex-membro do grupo engendrou numa das boas surpresas dessa edição.

Show memorável

O Cascadura, sem o “Dr” dos anos 90, é a única remanescente daquele período ainda em atividade. Vivendo sua melhor fase, a banda provou que o tempo só ajudou. No último show comemorativo aos 15 anos, a banda fez um show consagrador na primeira noite da terceira edição do festival. Todas as músicas cantadas em coro pelo público de cerca de duas mil pessoas. Um desfile exímio de hits roqueiros precisos, mesclando uma maioria de canções do mais recente disco “Bogary” com já clássicas músicas de discos anteriores. Um desavisado poderia imaginar estar ali uma banda super popular, que toca nas rádios da cidade, aparece em programas de TV e tem membros conhecidos pelas ruas. Nada disso, era uma banda bem sucedida do mercado paralelo independente. Na liderança, o único sobrevivente original, Fábio Cascadura, sabia controlar e dosar a própria emoção e empolgação e a participação do público. Showzaço.

Se a brincando de deus não se apresentou, foi lembrada em dois belos momentos, com as bandas indies (respeitando o rótulo que classificava as guitar bands dos anos 90) do festival, Berlinda e Snooze. A Berlinda é uma das novidades da atual cena, com uma sonoridade que já caracterizou o rock feito na Bahia. As composições do veterano Adriano “Batata” remetem a sua ex-banda, Arsene Lupin, e conferem a renovação. O convite ao que restou da brincando de deus, o organizador do festival Messias Bandeira, só reforçou o bom aroma dos anos 90 no ar. A Snooze reforçou ainda mais o perfume. Vindo da vizinha Aracaju, a banda passou por várias mudanças de formação e voltou a Salvador com os dois irmãos da formação original mandando suas belas canções cantadas em inglês e com guitarras recheadas de sujeira. Sem saber que mais cedo já havia acontecido o convite a Messias, chamaram-o ao palco para uma música da brincando de deus e um cover de Smiths. Mais anos 90 impossível.

Se formos falar de shows antológicos, porém, ninguém melhor do que os mestres. O Retrofoguetes costuma fazer shows incríveis de três horas e não foi difícil fazer o mesmo em um tempo menor. Estavam lá todos os elementos que fazem deles uma das melhores bandas do Brasil e uma das mais divertidas. A cozinha de Rex e CH servindo Morotó do necessário para detonar com sua guitarra petardos de surf music, música cigana, trilha de filme e o escambau. O Pelourinho não tinha visto aquilo ainda e ficou marcado. Showzaço com direito a participação de Alex Pochat e seu trumpete executando “Misirlou”. Matadora, para não deixar nenhum dúvida de que o rock feito ali é de primeiríssima.

Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta também não fizeram por menos. O rock-brasileiro da banda já provou funcionar em qualquer lugar e não foi diferente no Boom Bahia. Hits como “Circo”, “O Drama” e “Sete Sete”, mesclados a músicas novas ainda não lançadas, colocaram a banda mais uma vez no top 3 local. Mais um ótimo show, como é de de costume e aquela sensação que um público maior e fora da Bahia deveria dar mais atenção para esses caras.

A Theatro de Seráphin despejou mais guitarras e um elo com os anos 80, num show primoroso que serviu para apresentá-los para um público que ainda não havia ouvido a banda. Os anos 90 também estavam lá, com César Vieira (ex-brincando de deus) nas guitarras. Formada por músicos experientes, a maioria de bandas iniciadas nos anos 80, fez um dos melhores shows do festival. O encerramento do festival teve um Wander Wildner inspirado. Depois do Retrofoguetes seria difícil imaginar alguém fazendo um bom show e agitando o público. Mas era a vez de um dos bons veteranos do rock brasileiro. Acompanhado de duas mulhres, uma delas a ex-baxista d’As Mercenárias, deu um nó tático no público e lançou irresistíveis hits que fizeram a cabeça de muita gente ali. Arregaçou. Incluiu petardos da carreira solo, “Lugar do Caralho”, “Bebendo Vinho”, “Não consigo ser Feliz o tempo inteiro”, entre outras; canções imbatíveis, como “Candy” de Iggy Pop e a versão “Eu Acredito em Milagres” para música dos Ramones, além de relembrar os tempos do Replicantes como “Hippie-punk-rajneesh”. Catarse total e o rock mostrando estar vivo como nunca.

Novos tempos, novos rumos

Salvador, porém, não parou no tempo e não vive só de veteranos. Entre altos e baixos vive novos tempos. Não a toa, o Pelourinho, antes proibido de receber eventos de rock, recebeu muito bem 13 bandas e dezenas de DJs. Com uma cena mais ciente da realidade e com as possibilidades que um novo mercado configura, o festival aconteceu num momento propício. Como o próprio Messias repetiu como um mantra para a (pouca) imprensa presente: “Antigamente, a idéia do Boom Bahia era provocar a situação, fomentar a cena. Hoje é o contrário, a cena gerou o evento. Isso aqui é mais um registro”.

Uma das novidades do festival foi a banda Subaquático, vista por pouca gente, mas elogiada por todo mundo que presenciou o show. Nova, mas também formad apor veteranos. A banda mais novata do evento, Pessoas Invisíveis, com seu rock certeiro também repetiu os elogios e provou ser uma das melhores facetas do rock bainao mais jovem.

Novidades ainda em juntar vários Djs do cenário local para animar os intervalos. Melhor que isso foi trazer dois bons nomes pertencentes ao cenário rock com eletrônica. A baiana Rebeca Matta, também já veterana, fez um show correto, mas exagerado em covers meio óbvios. Poderia ter aproveitado melhor o momento. Os cearenses do Montage foram responsáveis por levar um público não muito afeito a shows de rock. Gays, clubbers, pessoal bem novo se misturava a um público de trintões, roqueiros velhos para ver o vocalista Daniel Peixoto avacalhar com qualquer performance anterior. Guitarras com bases eletrônicas, samples e um cantor performático fizeram da Montage uma atração a parte, pena que o som não ajudou e o show foi aquém do que a banda tem apresentado. Assim mesmo serviu para mostrar que cabe a mistura e que cabe novidades de verdade no festival.

Não foi um festival perfeito, mas foi o festival que Salvador estava pedindo. Foi como fechar o ciclo dos dois primeiros Boom Bahia e com o que restou de herança dos anos 90. Agora é pensar numa estrutura mais interessante para a próxima edição, marcada para julho, com dois palcos evitando a longa espera pelos shows seguintes, um espaço separado pra os DJs, já que não funciona tão bem no formato proposto e uma aposta maior em atrações convidadas. Alguns nomes locais que faltaram nessa edição já podem ser convidadas para a próxima: Vinil 69, Matiz, Starla e The Honkers. Uma aposta em shows revival tão na moda poderia ser uma boa: The Dead Billies ou brincando de deus, por exemplo. Mas o mais importante, mais frescor nas atrações, mais novidades, nomes que nunca passaram por aqui e pensar pra frente. Que venha o próximo.

* As fotos são de Boris e Marina Novelli

1 Comment

  1. estou visitando com um grupo de estrangeiros .no periodo de 14 a 20 de dezembro.,gostaria de saber a agenda de shws e banda .para que eu possa leva-los a assistir.

    obrigada aguardo retorno

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