FESTIVAIS LEGAIS QUE VISITAMOS EM 2015

primavera

Foto: Primavera Sound 2015.

Tem gente que não gosta ou não aguenta o ritmo dos festivais de música, mas quem é fã mesmo sabe que não tem lugar melhor para conferir shows e conhecer bandas novas do que os festivais. Sim, ver sua banda preferida num lugar menor, mais confortável também tem seu valor, mas eu jamais veria os shows que vi se não fossem os festivais.

Com ou sem estar tocando junto, vai uma lista de alguns festivais muito legais que vimos em 2015. Festival Dosol não conta para não lambermos a própria cria.

BANANADA (GOIÂNIA/GO)

Pra ver bandas novas da cena brasileira é um prato cheio, sem contar que o lugar do show (um imenso complexo projetado pelo Oscar Niemeyer) também é demais. Goiânia é uma das principais cidades pra ver coisas novas na música, se for rock então aumenta ainda mais o poder. Vimos lá King Tuff, J. Mascis, Karol Konká, Lê Almeida, Carne Doce e contando. Sempre em Maio, vale a ida.

LOLLAPALOOZA (SÃO PAULO/SP)

Para o meu gosto pessoal o principal festival desses blockbusters do país. Curto o local, curto os palcos, curto o horário e a programação apesar de ser mais puxada para gurizada dessas novas bandas eletro/pop/açucar. Ainda mantém ótimas opções para conferir. Sempre em Março, fomos três vezes e iremos de novo em 2016. Vimos Jack White, Robert Plant, Interpol, Smashing Pumpkins, Far From Alaska e Boogarins.

LIVERPOOL SOUND CITY (LIVERPOOL/UK)

Liverpool respira música e Beatles né? Eles são a principal atração turística da cidade e continuarão sendo, porque a fama dos fabfour só cresce. É nesse clima, com uma arena montada na beira das docas e um frio de rachar que curtimos o Liverpool Sound City. É simples, não tem muito luxo, mas dá para ver dezenas de bandas incríveis que você nunca ouviu falar na vida. Conhecemos o All We Are, Goastt, Dutch Unckle e vimos gente como o Flaming Lips reinando por lá. Sempre em Maio.

PRIMAVERA SOUND (BARCELONA/ESPANHA)

Top Festival, simples assim. Sempre com o lineup mais incrível e farta opções de shows para ver em todos os horários. Vi facilmente uns 40 shows durante todo o fim de semana. Também tem o melhor local para festival que já pude visitar, uma enorme arena na beira da praia para 100.000 pessoas. Vimos Strokes, Ride, Tyler The Creator, Patti Smith, American Football, Belle & Sebastian, Replacements, Death From Above 1989, Thee oh Sees e contando. Sempre em Junho.

RECBEAT (RECIFE/PE)

Carnaval do Recife é mágico. Tá, vamos combinar que nos últimos dois anos não foi lá essas coisas de atração no carnaval, mas o RecBeat continua sendo um dos melhores rolês de festival para se visitar. Na rua, gratuito, no coração do carnaval pernambucano você pode ver um show mais doido da sua vida ou aquele artista pop que você tanto curti no mesmo dia. Vale muito a ida, pelo menos uma vez para conferir. Sempre no carnaval. Vimos Russo Passapusso, Man Or astroman, Tagore e mais.

BR 135 (SÃO LUIZ/MA)

Coisa boa é você estar numa cena musical no seu despontar e foi essa a sensação de estar no BR135, festival em São Luiz, todo locado no centro histórico da cidade de maneira gratuita. Clima excelente, shows ótimos, vibe boa na terra do reggae. Dos festivais que nunca tinha ido foi o que mais gostamos. Vimos Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, Siba, Curumim, Criolina e Aloha Haole.

 

ARTIGO: EU SÓ QUERIA SER MÚSICO


Foto: Primeiro show do Jam97, também o primeiro show que organizei

EU SÓ QUERIA SER MÚSICO

Por Anderson Foca

Eu só queria ser músico. Tocar rock por aí, ser uma estrela da música e viver como num clip do Van Halen nos anos 80. Em 95 ser como os Raimundos já me bastava, vida na estrada, rock todo dia e coisas do tipo. Tentava sem sucesso ter uma banda que tinha como equipamentos uma caixa onde ligávamos todos os instrumentos e uma bateria surrada. Não havia escritório de familiares que não ocupássemos nos fins de semana com nossa “equipe”.

Em 97 dei um salto qualitativo. Passei a estar numa banda em que cada integrante tinha o seu equipamento. Quase não acreditei quando nos primeiros ensaios consegui finalmente ouvir minha voz minimamente depois de dois longos anos “cantando”. Formávamos um grupo chamado Jam97. Nome horroroso por sinal, mas que nos orgulhava muito na época. A tentativa de seguir carreira era uma só para quem estava no Nordeste. Tínhamos que ir ao Abril Pro Rock, ficar na porta do backstage, esperar Paulo André – produtor do festival – sair, dar uma fita cassete para ele e pronto, todo um sonho se realizaria: tocaríamos no evento, uma gravadora nos contrataria e no ano seguinte voltaríamos lá de novo com um disco e uma tour.

Eu só queria ser músico. Só que logo percebi que meu sonho morreria se eu esperasse a sorte bater na minha porta. O engraçado é que o universo conspira durante nossas elocubrações e acabei encontrando muita gente que vivia realidades (e sonhos) parecidas com a minha. Eram zineiros, roqueiros, indies, jovens jornalistas numa fauna imensa de desacreditados, totalmente à parte do universo das gravadoras, mas que acreditavam na música como condutora de suas vidas. Começamos a trocar cartazes, zines, fitas e nos conhecemos presencialmente em alguns festivais como o SuperDemo, Abril Pro rock, Porão do Rock, RecBeat, MADA, entre outros.

Eu só queria ser músico, mas em Natal tocar rock era impossível. Na angústia dos ensaios sem show, já fora da faculdade e com a carreira voltada só para a música, comecei a perder a esperança de ser contratado. Mais que isso, comecei a ter nojo da ideia de ter que entregar minha criação para outras pessoas editarem, gravarem e afins. Queria ser dono do meu nariz e responsável direto pelo sucesso ou fracasso da minha empreitada. Não me restava nenhuma alternativa a não ser seguir o caminho alternativo, onde shows autorais eram raros e tours de bandas de fora da cidade eram mais raras ainda. Começamos do zero produzindo shows para o Jam97, nessa época já com um nome um pouco melhor, o Ravengar. Lembro de comemorar como um gol uma nota de cinco frases publicada na Tribuna do Norte sobre o primeiro show. Era garantia de sucesso porque sem internet e redes sociais, o único jeito de informar as pessoas sobre uma atividade artística era via TV ou jornal. Assim comecei a me tornar um produtor cultural.

Como eu, centenas de jovens no Brasil inteiro passaram a ter as mesmas ideias, produzir os próprios shows, criar os próprios cartazes, seguir o lema punk do eterno “do it yourself” e empreender em atividades inéditas dentro de suas cidades, muitas delas inclusive ridicularizadas pelo poder público. Em Brasília, capital dos playboys, em Goiânia, capital da música sertaneja ou em Natal, capital do forró e em várias cidades Brasil afora a chama do rock independente permaneceu acesa, e mesmo nas mais toscas produções e nos piores espaços que nos abriram portas permanecemos ativos, mantendo a tradição dos nossos antecessores do punk, do começo do rock 80 e de muitos outros que vieram antes de nós.


Foto: show do Ravengar em 98 no Boulevard, Natal/RN

No final dos anos 90 já fazíamos coisas bem relevantes. Começamos a lançar nossos primeiros discos, e a minha geração foi a que popularizou o CD como mídia. Ficamos mais perto de registrar nossos trabalhos, já que lançar vinil por conta própria era algo fora da nossa realidade pelos custos de estúdio e prensagem. Começamos a nos digitalizar e a internet apareceu. Lembro de tentar gravar meu primeiro cd com o Ravengar, mas era tão caro que a banda acabou antes de terminarmos o disco completo (a dívida do estúdio só foi paga quase três anos depois com os mesmos caras que mixamos hoje, o Megafone). Continuei em bandas e continuei produzindo shows e bandas. Meus companheiros fora daqui começaram a ter vitórias parecidas, alguns foram absorvidos pelo mercado mainstream, outros foram protagonizando cenas em suas cidades como a Monstro em Goiânia, Tamborete no Rio de Janeiro e uma infinidade de labels em São Paulo, só para servir de exemplo.

Com a internet, a troca de informações entre a minha geração ficou mais dinâmica. Fomos capazes de utilizar isso ao nosso favor enquanto assistíamos “de camarote” a derrocada das grandes gravadoras como conhecemos, engolidas pelo período digital. Nossas atividades foram ganhando alguma visibilidade, já não éramos os patinhos feios da sociedade, muito de nós estavam começando nas redações de jornais e revistas, aos poucos fomos começando a produzir artistas que eram nossos contemporâneos e que tinham atingido o grande público e fomos aprendendo a atuar mais profissionalmente.

Eu só queria ser músico, mas já fazia mais de dez atividades ligadas à música que não tinham a ver com ensaiar, compor e se apresentar. Meus trinta minutos em cima do palco eram um prêmio pelo meu esforço de fazer o rock acontecer diariamente na minha vida, na minha cidade e no meu país. Sabia que o que eu fazia era parte de algo muito maior e que tinha alguém bem longe de mim que estava fazendo o mesmo. Pela internet trocamos tecnologia e encurtamos caminhos uns dos outros. Nossa geração sabia que precisávamos de força conjunta, meu grupo nunca iria para São Paulo se eu não fosse capaz de receber um grupo de São Paulo por aqui. Criamos intercâmbio mínimo, médio e máximo.


Foto: Um dos shows que sempre sonhei produzir. Danko Jones (Canadá) no Festival Dosol 2009. Virou realidade.

Não queríamos mais espaços ruins pros nossos shows e resolvemos abrir nossos próprios espaços, adequados à nossa realidade. Não queríamos mais estúdios que não entendiam nossa linguagem e compramos nossos próprios computadores. Não queríamos mais festivais com bandas que não nos agradavam e criamos nossos próprios festivais. Sou capaz de contar nos dedos das mãos quantos festivais de música independente existentes até hoje no Brasil que são geridos por caras que não são músicos ou não vieram de alguma banda. Perdemos editais e projetos por mais de dez anos para corporações culturais instaladas nas grandes cidades e aprendemos sozinhos a competir por melhorias para as nossas atividades. Ninguém nos ensinou, ninguém deu dica, não havia palestras. Atiramos no escuro até começar a acertar e replicamos as coordenadas para que mais de nós pudessem fazer o mesmo. Minha geração não ficou num bunker atirando pedra no inimigo oculto. Foi lá e cavou seu espaço com muito trabalho e dedicação que só o extremo amor pela música foi capaz de nos fazer aguentar. Isso pode soar piegas, mas é real.

Muitos de nós se organizaram em associações  e movimentos culturais para ter força política e defender nossos direitos como classe culturalmente ativa. Vieram ABRAFIN, Fora do Eixo, Associação de Produtores, Fóruns de Músicos, Redes, Casas de shows, Cine Clubes, sites, entre outras centenas de atividades, todas no intuito de se manter viva a chama da música nas mais variadas esferas da sociedade. Nossas responsabilidades aumentaram mas nunca corremos com medo desses novos desafios. Nunca corremos com medo de nada.

Por isso que é fácil entender porque caras como eu produzem festivais, têm banda, estúdio, fazem seus próprios clips, sua própria assessoria de imprensa e ainda saem para dividir experiências Brasil afora com quer tentar fazer o mesmo. Estamos acostumados. É o que fizemos ontem, fazemos hoje e vamos continuar fazendo amanhã. E eu só queria ser músico.

Para essa geração que se forma agora no meio do caos mercadológico em que se configurou a música no Brasil é compreensível que ao invés de heróis da resistência (título que não queremos para nós) sejamos vistos por alguns como o “mercadão a ser combatido”. O contra-ponto, o “inimigo” a se combater parecem ser uma espécie de pólvora propulsora. Sabemos disso, já fomos assim. A minha geração tinha um oceano para atravessar a nado para poder colher alguma vitória. E essa geração de agora? Qual é a briga boa a se comprar? Existe um oceano para ela atravessar?


Foto: perseguimos o sonho de trazer um Ramone à Natal por 10 anos. Marky Ramone em ação no Festival Dosol 2010.

Eu ouvia fita fora de rotação para conhecer meus ídolos da música e a nova geração clica num streaming e ouve qualquer coisa em altíssima qualidade. Eu via filmes dropados e com áudio fora de fase para assistir meus ídolos e hoje tudo está disponível no youtube em alta definição em tempo real. Só vi um estúdio ao vivo quase seis anos depois de começar minha carreira com música; hoje, em cada computador tem o que os Beatles jamais tiveram para gravar. Essa geração tem a sorte de não ter o que combater, porque não somos os inimigos inacessíveis com os quais eles nunca dialogarão como foi para gente quando começamos nossa atividade com música. Qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo fala com qualquer um dos caras da nossa geração com um único clique e correspondemos a esse contato dentro do limite do possível (e às vezes do impossível).

Sobra tempo para essa geração empreender, se dedicar e realizar. Tempo que nenhum dos caras da minha geração ou dos que vieram antes jamais tiveram para se manter em atividade com música. Hoje temos uma super população de artistas que termina sendo um crivo muito mais difícil para quem quer ter uma carreira. Temos muito mais quantidade e dessa quantidade aumentou também a qualidade de registros, áudios e perfomances mundo afora. Cada período tem suas dificuldades e vocês da nova geração têm que arrumar soluções inteligentes para vencer esses novos obstáculos.

Dedico esse texto, que pretende ser o começo dos meus relatos para um livro de 10 anos de atividade do Dosol, para todos os meus amigos advogados, promotores, médicos, fiscais da natureza, e doutores que tentaram ter alguma carreira na música e por uma contingência do destino não conseguiram. Se hoje ainda continuo aqui empreendo na música devo isso a todos eles.

Essa é a única e real história sobre a minha geração, aquela que disse não ao mercado como ele existia e criou o seu próprio (e ainda muito pequeno) espaço. O mais legal disso tudo é que descrevi resumidamente acima apenas o começo de uma longa caminhada.  Podemos acumular conhecimentos e continuar a caminhada juntos. Quem se habilita?

CIRCUITO CULTURAL RIBEIRA – COLORINDO O BAIRRO

Chegamos neste final de semana na 5ª edição do Circuito Cultural Ribeira, ação capitaneada pela Casa da Ribeira e a Associação Cultural Dosol que vem promovendo todo o primeiro domingo de cada mês atividades gratuitas envolvendo todos os pontos culturais do bairro. A ação, aportada pelo Programa Conexão Vivo, através da Lei Câmara Cascudo, vem cumprindo seu papel de dar mais visibilidade às atividades do bairro e aos poucos também vem despertando interesse da classe artística que tem proposto atividades paralelas bem importantes como a Lavagem do Beco da Quarentena (ação organizado pelo Rosa de Pedra em conjunto com o produtor Marcíli Amorim), entre outras.

Nessa etapa do Circuito, outra atividade extra (e que deve continuar em toda as etapas) é a ocupação artística das paredes e muros do bairro. Dessa vez quem encabeça a atividade é o Atelier de Flávio Freitas, uma das figuras mais simpáticas e queridas do bairro. Junto com a coordenação do circuito foram levantados cerca de dez pontos de atividade que são possíveis de serem transformados com grandes telas e aplicações direto na parede. Estão escalados para essa primeira etapa de atividades de artes plásticas no circuito Daniel Minchoni, Sinha Sinha, Tôligado, Maurício Fontinelle e Flávio Freitas.

Vai ser legal ver o que esses artistas são capazes de fazer. Apareça para conferir neste domingo. Nos vemos lá! Abaixo vai um vídeo de uma atividade de Intervenção produzido pelo Dosol em setembro do ano passado:

ARTIGO: HERMANO VIANNA – UMA NOVA ERA

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Uma Nova Era

Por Hermano Vianna, publicado no O Globo.

Último dia de 2010. A Modern Sound, loja de discos de Copacabana, encerra suas atividades. A Blockbuster americana entrou com pedido de falência este ano. Fim de uma época. Lembro das minhas viagens de adolescente, do Rio de volta para Brasília, com LPs importados carregados cuidadosamente na sacola da Modern Sound — medo de o vinil empenar e assim perder a grana de muitas mesadas. Estranho, agora me dou conta: nunca mais tinha comprado nada ali. E nas minhas mais recentes viagens internacionais trouxe pouquíssimos CDs.

Meu som está quebrado, não tem peça para reposição, e fico com preguiça de tentar resolver o problema. Não baixo música, escuto quase tudo o que me interessa via YouTube, ou sites de streaming. Nem penso em arrumar mais espaço em prateleiras (na verdade no chão da minha casa, onde pilhas de CDs e LPs atravancam todos os caminhos) ou nos discos rígidos para armazenar pesados arquivos sonoros.
Tudo está na “nuvem”, abençoada nuvem, facilmente navegável com a ajuda do Google. Esses meus novos hábitos não são minoritários. O fechamento da Modern Sound é mais uma prova de que todo mundo passou a consumir música online.
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SELO VIGILANTE DESTACA CENA POTIGUAR

A pedido do Selo Vigilante, escrevi um pequeno texto sobre a cena potiguar de rock. Acompanhem:

Texto de Anderson Foca*)

Do olho do furacão falo um pouco da cena potiguar aqui no Site Vigilante a convite do Rafa Ramos, parceiro de rock desde os tempos em que ele era baterista do Jason (RJ) e dormia no chão da minha casa (fazem quase 15 anos). De lá para cá as coisas deram um guinada para melhor na música potiguar no geral. Cenas se formaram, festivais apareceram e passamos a ter até uma pequena liderança nordestina em se tratando de música independente.

Nada disso foi por acaso e é fruto de muito trabalho e dedicação de várias pessoas em vários momentos da nossa curta história. 1998 foi um ano chave com o começo das atividades do MADA, um dos festivais de música do estado e das atividades ainda undergrounds do que vinha se tornar o Dosol (nessa época apenas duas pessoas fazendo shows trimestrais).

Hoje temos pelo menos quatro eventos sólidos e anuais com muita (ou alguma) projeção: MADA, Festival Dosol, CaosNatal e Chamada Carnavalesca do Rock. Outros tantos estão se formando como o Festival Rock Potiguar e o Mormaço. Dentro dessa pespectiva terminamos recebendo muitas bandas de fora do estado, o que nos trouxe novas sonoridades, network e experiência.

Como em todos os lugares do país existe ainda muito pouco compromisso com a música como empreendimento, o que torna as banda incipientes e com pouca durabilidade. Isso, se por um lado mostra um pouco de falta de continuidade para alguns trabalhos, por outro termina misturando músicos e se formando novas bandas (invariavelmente melhores que as originais). Com uma dezena de exceções, praticamente de dois em dois anos temos uma reformulação de formações, bandas e até de público nos espaços onde rolam shows.

No Centro Cultural Dosol, lugar onde fazemos nossas atividades, sentimos essas mudanças o tempo todo, já que comemoramos seis anos de existência numa cidade em que a média de tempo em que casas de shows ficam abertas é de menos de um ano. Dentro das possibilidades e com muito trabalho (diário e constante) está tudo indo bem por aqui. Destaco três grupos que estão na ativa e que valem a pena serem lembrados, claro que muitos outros nomes como Valéria Oliveira, Bugs, Os Bonnies, Venice Under Water, Ak-47, Expose Your Hate, Planant, entre outros poderiam entrar aqui. Confira:

CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA


Banda instrumental que toca rock com flertes no pop, reggae, ska, metal e o que mais vier na telha. O lema da turma é diversão e shows, que é onde as coisas acontecem pro grupo. Atualmente está numa tour que já teve 40 datas (só esse ano), entre eles a Virada Cultural de SP, Abril Pro rock, Circo Voador, Bananada, RecBeat, Festival Dosol, Feira da Música do Ceará e Sesc Pompéia.

CALISTOGA


Vindos do hardcore, a turma evoluiu o som e hoje faz um dos shows mais intensos do rock nacional, com guitarras altas, melodias certeiras e experimentações vocais. Também circulam bastante e atualmente estão gravando seu quarto trabalho. Se você gosta de At The Drive In, Fugazi ou Queens Of The Stone Age vá para dentro!

DUSOUTO
Maconha, loops, letras sarcásticas e som feito para fazer o povo cair na dança. Esse é o Dusouto, uma das das formações mais legais do estado. Tudo isso com a bagagem de ter na sua formação dois terços do General Junkie, a melhor banda de rock de Natal em todos os tempos. O terço que completa o trio é Gabriel Souto, gênio dos pitocos, artista no seu estado mais bruto. Saí da frente!

(*Anderson Foca é Do Sol)

OPINIÃO: MONEY FOR NOTHING POR HIGOR COUTINHO

capilé

Depois de uma enorme e bacana discussão nos comentários do blog oinimigo, repercutindo a entrevista que Pablo Capilé deu na sua passagem por Natal, replico a melhor opinião sobre o assunto que li e que pode representar a nossa (do Dosol) nesse contexto todo. O texto é do Higor Coutinho do Goiânia rock News. Leia aí:

Desde que o mundo é mundo a humanidade está dividida em contentes e descontentes. E o descontentamento é poderoso, transformador, quando conduzido para o lugar certo. Mas independente da geografia, o “lugar certo” na maioria esmagadora das vezes está subordinado ao contexto, a uma série de fatores conjugados que ajuda na conversão dessa contrariedade em uma nova realidade que, por melhor que seja, muito provavelmente vai produzir novos descontentes.

A atual cúpula da música independente nacional, resumida em cerca de meia-dúzia dos produtores de alguns dos festivais mais importantes do circuito, ascendeu localmente em meio a um cenário de transição, fruto da associação entre uma nova, e favorável, realidade tecnológica e a insatisfação com aquela lógica de mercado castradora, que impedia sistematicamente o desenvolvimento orgânico de uma música honesta, essencialmente urbana, até então mal-aparelhada e apertada em guetos.

Da apropriação dessa popularização tecnológica via banda-larga, e do descontentamento (e, quase sempre, de uma devoção quase religiosa à música) nasceram os símbolos propostos de uma nova lógica, organizada de baixo para cima, que desprezava o “sucesso” e em seu lugar cobrava (propunha) somente dignidade artística, traduzida na “utópica” criação de um circuito nacional de música independente que conseguisse, no mínimo, se manter de pé sozinho.

O resultado disso tudo todo mundo já sabe. Reunidos em associações locais que se expandiram (e se integraram) até atingirem alcance nacional, produtores (que grande parte das vezes são também músicos) fundaram a ABRAFIN – Associação Brasileira de Festivais Independentes, e uma série de outras siglas que tentam organizar e, atribuindo um método ao processo, profissionalizar o circuito.

Porém, estabelecidos os pilares dessa nova realidade, um eventual e desorganizado coro de descontentes surgiu e tem se manifestado ferozmente sempre que pode. E o ultraje máximo a que respondem com tanta ferocidade é o fato de que, ao serem convidados para alguns dos vários festivais da associação, a ABRAFIN se recusou a pagar para tê-los em suas programações.

O mais novo palanque dessa turma é o espaço reservado aos comentários na entrevista que o Pablo Capilé, membro cuiabano dessa cúpula, concedeu ao Hugo Morais e que está publicada no Inimigo.com. E o mais curioso não são as reclamações recalcadas, mas a paciência e didatismo com que figuras como o Miranda (é, esse mesmo) e o Fabrício Nobre tratam seus detratores, respondendo pacientemente a esdrúxulas acusações que vão de enriquecimento ilícito até exploração de trabalho escravo (!?).

Não consigo enxergar muita polêmica no tema. Juro. Pra mim as coisas são tão simples quanto poderiam ser. Música é, essencialmente, prazer estético, comunicação. Cada banda vale quanto pesa, e se a sua ainda não se comunica como você gostaria, e não garante um público que valha o investimento, festival nenhum no mundo vai gastar sua verba com você. Com ou sem patrocínio público. Ponto. Continuar lendo

DISSEMINAÇÃO POR REDES SOCIAIS

BRUNO REDES

Por Bruno Nogueira

A idéia de redes sociais é antiga. É anterior a própria internet. A rede é uma metáfora para observar padrões de conexão entre um grupo social. É uma estrutura social, formada por atores e suas conexões. No mundo offline, esse ator somos nós, o indivíduo e as pessoas que temos contato direto. No online, essa idéia de ator fica mais complexa. Passa a ser uma representação do individuo.

Essas representações são os blogs, os fotologs, nossa conta no twitter e no orkut. Porque é assim que nós conseguimos nos materializar dentro da internet. São nossos lugares de fala. E os blogs e fotologs são ferramentas que ajudam a construir nossa identidade na rede. São uma forma de narração do eu, porque quando estamos lá, estamos sempre falando e expondo a nós mesmos antes de qualquer coisa.

É preciso ser visto para existir no ciberespaço. A primeira grande diferença entre uma rede social offline e uma online, é que para que a gente se socialize na rede, a gente precisa ser visto.

Esses atores, ou suas representações, constituem uma rede social através dos laços que eles criam através de várias ferramentas. Podem ser laços associativos, como decidir ser amigo de alguém no Orkut ou trocar links no fotolog. Ou laços dialógicos, como conversar com alguém no MSN ou trocar scraps no Orkut. Laços que dependem da reação de outros atores. Ambos são laços de relação complexa. Afinal, não basta fazer parte de sua rede, tem gente que você vai se relacionar mais ou melhor que outras, pessoas que tem amizade mais antiga, etc. Continuar lendo

CULTURA DOS FANZINES NO FESTIVAL DOSOL 2009

VAMOZ+REJECTS

Foto: Rejects e Vamoz juntos em show promovido por Dosol e Lado [R]

CULTURA DOS FANZINES É INCENTIVADA NA 6ª EDIÇÃO DO FESTIVAL DOSOL

Grupo de fanzineiros do Lado [R] lançam dois trabalhos de uma só vez durante o Festival Dosol 2009

Literatura alternativa, novas idéias, propostas inovadoras, anarquia gráfica e independência editorial e estética. Se fôssemos analisar de maneira básica o que é um fanzine essas seriam suas principais características. Mas fanzine é muito mais que isso. É na verdade manter vivas as tradições do mercado independente sem a inocência de outrora. Na edição de 2009 do Festival Dosol que acontece dias 07 e 08 de novembro na Rua Chile, Ribeira reunindo 31 bandas, toda parte da divulgação do conteúdo dos grupos para o público em geral será feita através de fanzines distribuídos dentro do evento.

O trabalho encabeçado pela equipe do Lado [R] é uma continuidade das ações que o Dosol e o combo de atividades editoriais realiza durante todo o ano. No conteúdo dos fanzines distribuídos estarão as informações de todos os grupos que vão se apresentar, entrevistas e opiniões. Está será a terceira e a quarta edição do Errado, zine de bolso que já circula há três meses pela cidade. “O que queremos é que as pessoas  interajam com esses novos grupos de todas as maneiras. Já temos uma atividade na televisão, no nosso portal e a idéia do zine é entregar ao público fonte de pesquisa das bandas que vão tocar no Festival Dosol, depois que os shows acontecerem”, diz Ana Morena, produtora do evento.

Confira entrevista com um dos editores do Lado [R], o músico Rafael F.:

1 – Como será o envolvimento do Lado[R] com o Festival Dosol 2009?

Então, acompanhamos o festival desde a sua criação. A cada ano participamos de diversas formas, seja tocando, fotografando e criando conteúdo pra web. Esse ano não poderia ser diferente. Preparamos um guia de bolso iradíssimo para os dois dias do festival. Além do Errado especial Festival Dosol , acredito que sairá uma cobertura audiovisual do evento com a cara e a maliça do [R].

2 – O Lado[R] e o Dosol já fazem coisas em conjunto em algumas produções. Vem mais coisas pela frente?

O Dosol é parceiro do Lado[R] desde longa data. Já fizemos um monte de coisas juntas: festas, lançamentos literários, parceria em outras ações. Somos abertos ao diálogo. Quem sabe conversar e chega na roda sem encarnação, pode ser nosso parceiro. Porque não? Como a moçada do Dosol acha massa as loucuras que realizamos, imagino que a parceria deve rolar por muito tempo.

3 – Como está o conteúdo dos fanzines?

Conteúdo doidão, inteligente e fora do convencional. Pelo menos é essa a nossa busca constante. Aí, você pode encontrar de tudo nas páginas do Lado[R]. Na veia corre o velho sangue do “faça você mesmo”. Então, primeiro tem que fazer a nossa cabeça. Se faz a nossa, faz a dos nossos amigos e chegados. Sempre brincamos dizendo que “fazemos o impresso que gostaríamos de ler”. É bem por ai.

4 – A cultura do fanzine se identifica com a cultura dos Festivais  Independentes?

Tem tudo a ver. O que seria do rock sem os fanzines? Quando os fanzines explodiram no mundo todo, o rock foi a trilha sonora para a destruição. Não sei muito bem como está esse lance todo de festival independente. E o que é ser independente hoje? Eu sou super dependente, sabe. Dizem que tem uma galera fazendo o nome, né? Se o mesmo acontecesse com os fanzineiros que circulam e divulgam esses festivais, seria massa. Distribuição de renda é uma coisa importante para a América Latina. hehehe

5 – Quais os próximos passos do Lado[R]?

Lançar a edição nove do fanzine. Que deve sair com cds encartados de duas ótimas bandas de rockn’roll da cidade. Mais um Errado daqui pra o final do ano. Alguma peripécia audiovisual. No resto é esperar o verão chegar pra cair na estrada rumo a Chapada Diamantina. E que venha 2010.

Os ingressos para o Festival Dosol 2009 já estão a venda nas Lojas Spicy do Natal Shopping e do MidWay Mall com preços promocionais de R$20,00 individual e R$30,00 a casadinha pros dois dias do evento.

O Festival Dosol 2009 tem patrocínio da Oi através da Lei Estadual Câmara Cascudo e Governo do Estado e apoio do Praia Mar Hotel e Holiday In através do programa Djalma Maranhão de incentivo a Cultura. Também apóia a iniciativa o Oi Futuro. Todas as informações e escalação completa do evento pode ser conferida no portal www.dosol.com.br .

SERVIÇO
O que? Festival Dosol 2009
Onde? Rua Chile, Ribeira, Natal/RN
Quando? Dias 07 e 08 de novembro a partir das 15h
Quanto? R$20,00 ingresso individual e R$30,00 para a casadinha dos dois dias.
Ponto de Venda? Lojas Spicy, Natal Shopping e Midway Mall.
Informações? 3642-1520 ou WWW.dosol.com.br

BRUNO NOGUEIRA (PE): PERIFERIA CONECTADA

LANBAHIA

A palavra “sucesso” se tornou um dos verbetes mais complexos do vocabulário da indústria do entretenimento nos últimos 20 anos. Sem os parâmetros tradicionais que antes elencavam um artista, cada um encontrou maneiras diferentes de eleger – além da estética da própria música, claro – quem está ou não em destaque. Uma das saídas mais honestas parece ter sido a da mídia tradicional de dar mais atenção ao próprio público e onde eles estão clicando na internet em buscas de novidades. “Parece”, porque em termos concretos, a mídia parece estar sempre atenta ao público errado.

Um dos melhores exemplos é o da cantora paulista Mallu Magalhães, que sempre aparece nas matérias de revistas precedida de “fenômeno da internet” por ter conseguido somar 1 milhão de visitas em sua página no MySpace em nove meses. Nada mal, de fato, mas pouco se considerado que bandas como a baiana Parangolé ou a dupla MC Bill e Bolinho conseguem duas vezes mais acessos em menos da metade desse tempo. Ao contrário do retrato feito em matérias, a periferia é muito mais conectada que o centro.

Diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, o professor Ronaldo Lemos sempre pontua suas idéias sobre o assunto com o dado de que “as classes A, B e C são apenas 15% da população no Brasil”. Segundo ele, que é co-autor do livro Tecnobrega – O Pará Reinventando o Negócio da Música. “Quando vemos um YouTube e Redes P2P sendo usadas por artistas da classe A e B, vemos inovação; mas quando a gente vê a periferia usando essas ferramentas, pensamos pirataria, mal gosto e uma série de defeitos”, diz. Continuar lendo

REFLEXÃO: MÚSICA AINDA É PROFISSÃO?

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Foto: Macaco Bong – Música e paixão

O valor que essa gente bronzeada tem.

(escrito para o Guia da Produção Cultural 2010 do Edson Natale e da Cris Olivieri)

Se eu estivesse começando a carreira hoje, prestaria atenção em algumas coisas que podem fazer a diferença entre profissão ou passatempo. Como todo conselho dos mais velhos, pode ser interpretado apenas como – preste atenção!

1) Música como um serviço, como a gastronomia, a fabricação de vinhos ou roupas. As pessoas que consomem este serviço são chamadas de “público”, em vez de “clientes”. Esta é uma relação simples e direta, artista e seu público. O público, se gosta, entra na cadeia produtiva e acha uma forma de pagar para consumir, para fruir e se deliciar com sua música, pagando por ingressos, comprando discos, CDs, LPs, downloads ou músicas no celular, tanto faz. Não fará mal nenhum ao artista que inicia sua carreira lembrar-se disto e assim buscar seu público, trata-lo com carinho, e descobrir a maneira como seu público irá recompensa-lo financeiramente. O conceito principal é que haverá uma troca: sua arte, seu trabalho, pelo seu sustento e mais um pouco. Quem paga a conta é o público.

2) Como fazer negócio? Depois de 100 anos de um certo modelo unico que servia para todo mundo, consagrado pelo nome “gravadora”, quando este modelo fracassa pelo desgaste tecnológico, pela mudança de costumes e habitos, enfim se desmancha de velho e gasto, é normal e compreensivel que os artistas da música sintam falta de uma estrutura comum a todos, algo que simplificava a venda, na verdade tirava de perto do músico o “caixa”, o trabalho comercial. Pior, neste momento, 2010, ninguem sabe como fazer funcionar como negócio essa troca entre público e artista. Cada caso é um caso, não há método nem vale a experiencia. Não é uma questão de dinheiro, de empresas que sabem o que fazer, de caçadores de talento, curadores ou padrinhos. O que funciona para um pode funcionar apenas para ele. Portanto, faça o que o seu nariz manda voce fazer. Seu negócio, entendeu? Uns vão procurar distancia do trabalho comercial e vão delegar para vendedores, empresarios, agentes, produtores. Ok, não é má idéia, é preciso tempo para ensaiar e compor, mas não perca o controle de qualidade, será o seu público, não deles. Certas pessoas tem este talento comercial e gostam da música e do seu ambiente, junte-se a eles, mas é preciso manter pulso firme para que os conceitos comerciais não determinem o rumo artistico. Mostre quem manda, a arte; mesmo que se percam algumas oportunidades, virão outras. Se em seu caso voce quer apenas tocar e não quer se preocupar com esse controle, essa responsabilidade, muito bem, sempre se pode conseguir emprego numa banda, numa orquestra e seguir o lider. Boa sorte e estude também para algum concurso público. Para seguir uma carreira na música é preciso lidar com estas responsabilidades e inseguranças, acreditar que irá conseguir criar um público a partir de sua arte, de sua maneira de ver o mundo e de usar a música para se expressar, inclusive até com letra. Crie seu negócio a partir do que voce enxerga na sua frente, seu público. Continuar lendo

BRUNO NOGUEIRA (PE): CASSIM E BARBÁRIA

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De: Florianópolis – SC
Selo: Midsummer Madness
Para quem gosta de: Tropicalismo, experimentalismo e krautrock. Não dá mesmo para citar bandas iguais.

Cassiano Fagundes não acredita na banda do momento. O que é uma grande irônia, porque o grupo que ele montou quando se mudou de Curitiba para Santa Catarina é o nome da vez, aquela banda que todo mundo gostaria de ter previsto que iria acontecer em 2009, mas que ninguém conseguiu. Cassim e Barbária nasceu das músicas que ele criava e não entravam no perfil do seu outro grupo, o Bad Folks, e um convite de Rodrigo Lariú para que ele montasse uma banda para fazer shows com esse novo repertório. “Tenho uma fixação por Krautrock desde 1999 e tinha tentado misturar rock experimental alemão com a tropicália e o soul. Em pouco tempo, pessoas que eu admirava no mundo da música começaram a elogiar”, conta Cassiano, sobre as músicas que subiu em seu MySpace. “Gente como Adam Franklin do Swervedriver, por exemplo”.

Sua banda é um time dos sonhos do experimental brasileiro. É formada pela figura quase lendária do Zimmer, que além de tocar nos Ambervisions, passa parte do tempo com uma máscara de luta livre e um Teremim dos infernos (literalmente), na dupla ABesta, junto com Suzuki Bata. Eles estão juntos com Márcio Silva, que estudou música com um discipulo direto de John Cage, XuXu e MLeonardo da Pipodélica, uma das responsáveis por transformar Floripa no destino da chamada “música livre” e experimental no Brasil. “Aqui tem um ar de fronteira, onde tudo é possível, talvez por isso o noise esteja tão em voga por aqui. São muitos músicos, estudantes de arte e música fazendo som com chaleira, oscilador de frequência, é uma cena muito interessante e inusitada”, relata o músico. Continuar lendo

BRUNO NOGUEIRA (PE): A CULTURA DA TROCA – PARTE QUATRO

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Entender o público – ou até mesmo se posicionar entre ele – parece uma das tarefas mais difíceis de toda indústria de entretenimento hoje. Acostumada a simplesmente ditar e moldar a opinião através de canais fortes e bem estabelecidos, quando o próprio mercado dispersou as pessoas em centenas de opções por diversão, seus agentes ficaram sem saber exatamente em que direção olhar e que decisões tomar para garantir as rédeas. Ao longo dessa micro-série de quatro textos, vimos como isso resultou em processos e formas mais ortodoxas de tentar domar a vontade das pessoas. E como isso só serviu para aumentar a revolução da troca de arquivos.

Desde aquela primeira troca de músicas entre Shaw Fanning e seus amigos, ensaiando o início do Napster, o que começou a se construir foi uma Economia da Colaboração, que é até bem simples de compreender. Ela dá cabo a uma grande questão que a maioria das gravadoras nunca pararam para pensar: quando trocam música que compraram antes na rede, o público também está perdendo dinheiro. É uma parte óbvia da economia capitalista que nos diz que dar as coisas que compramos não é uma boa idéia. Mas o público decidiu faze-lo mesmo assim. Continuar lendo

LUCIANO MATOS (BA): VIABILIZANDO VIAGENS, ARTISTAS E FESTIVAIS


Se a venda de discos, seja em formato físico ou digital, não dá (e nunca deu na verdade) para sustentar os artistas, cada vez mais são para os shows que os olhos crescem. O ideal seria o artista/ banda ter um bom público em sua cidade e conseguir replicar isso para outros lugares. Mas como viajar, cair na estrada e chegar num lugar desconhecido, sem grande reforço mídia e conquistar o público? Uma das ferramentas que tem contribuído para possibilitar essa entrada nas cidades são os festivais, já abordados e divulgados aqui em vários momentos. Mas ainda há um entrave. Os festivais não conseguem bancar a estrutura completa de todas as atrações. Seria necessário um recurso alto, especialmente para investir em artistas que ainda não possuem um público maior. Tem que ser um investimento de duas partes, mas que acaba deixando um problema em aberto. A banda precisa viajar para ganhar mais público e conseguir se sustentar, mas para tocar nos lugares, ganhar mais público e ganhar dinheiro, normalmente precisa investir. Um dilema que parece complicado de solucionar.

Na verdade várias soluções vão sendo encontradas: articulação de turnês facilitando os deslocamentos, participação em editais públicos que bancam as turnês etc. Mas que ainda depende de vários fatores muitas vezes distantes do poder de um artista/ banda. Uma idéia bem interessante está sendo colocada em prática pelo Circuito Fora do Eixo, uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões Centro-Oeste, Norte e Sul. Trata-se também de um edital, mas sem vínculo com o poder público e sim direto com os artistas. Uma ação coletiva e independente, literalmente, e que pode ser uma das soluções para circulação de artistas e contribuição na viabilidade de festivais. Continuar lendo

LUCIANO MATOS (BA): MOVIMENTO PARA BAIXAR MÚSICAS


Durante o 1º Fórum Música para Baixar, realizado em Porto Alegre/RS, em paralelo ao Fórum Internacional de Software Livre, foi lançado o manifesto do Movimento Música para Baixar, escrito por várias mãos.

Segundo o movimento, “O que antes era um mercado definido por poucos agentes, detentores do monopólio dos veículos de comunicação, hoje se transformou numa fauna de diversidade cultural enorme, dando oportunidade e riqueza para a música nacional – não só do ponto de vista do artista e produtor, como também do usuário.”

O movimento Música para Baixar é uma reunião de artistas, produtores, ativistas da rede e usuários da música em defesa da liberdade e da diversidade musical que circula livremente em todos os formatos e na Internet.

Segundo o manifesto: “Quem baixa música não é pirata, é divulgador! Semeia gratuitamente projetos musicais.”

Segue afirmando: “Temos por finalidade debater e agir na flexibilização das leis da cadeia produtiva, para que estas não só assegurem nossos direitos de autor, mas também a difusão livre e democrática da música.”

No manifesto, o movimento diz ainda que a prática do “jabá” nos veículos de comunicação é um dos principais responsáveis pela invisibilidade da grande maioria dos artistas. Por isso, defendemos a criminalização do “jabá” em nome da diversidade cultural.

Prossegue afirmando que o movimento vai resistir a qualquer atitude repressiva de controle da Internet e às ameaças contra as liberdades civis que impedem inovações. Segundo eles, a rede é a única ferramenta disponível que realmente possibilita a democratização do acesso à comunicação e ao conhecimento, elementos indispensáveis à diversidade de pensamento. Continuar lendo

BRUNO NOGUEIRA (PE): E O POP BRASILEIRO?

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O rei do pop está morto. Em listas de discussão na internet, fóruns e espaços especializados em música, um dos tópicos resultantes da notícia é quem será seu sucessor ao trono ou mesmo se haverá um. Tem quem acredite que essa monarquia já está encerrando, de forma decadente, esperando que mais uns três ou quatro nomes também partam dessa para a melhor. E, de fato, pensar esse universo pop global é um trabalho complicado. Mas fica pequeno quando é localizado na questão: e no Brasil? Quem seria nosso rei?

Talvez não exista um espaço tão conturbado na história dos gêneros musicais como o pop brasileiro. É um conflito que antecede a própria embalagem da MPB e o único que consegue dividir em extremos opostos os campos da produção, circulação e consumo de nossa cadeia produtiva. Se pensarmos no tratamento que a música pop recebe, por exemplo, em Estados Unidos e Europa, para tratar com um paralelo no caso brasileiro, a situação fica ainda mais complexa para destrinchar.

É um conflito também marcado por uma divisão de classes. Apesar do “pop” estar semanticamente ligado ao popular, as classes dominantes sempre tiveram dificuldade em aceitar que a produção que vem de baixo ocupe o espaço de quem está por cima. Foi assim com o samba, que, quando surgiu nos morros do Rio de Janeiro, foi imediatamente denegrido a música de pior qualidade. Algo que acontece com menos força e impacto com os casos do funk carioca e o Calypso. Continuar lendo

RELEXÃO: PORTO MUSICAL – O DEBATE ENTRE O PASSADO NOSTÁLGICO E O FUTURO ANGUSTIANTE

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Por Jamerson de Lima

Foto: Rafael Medeiros

Hoje em dia, passados mais de dez anos da popularização da Internet, da invenção do mp3 e das redes de compartilhamento de arquivos, ninguém ainda se atreve a considerar soluções concretas para este incerto futuro do Music Business. E ao longo de quatro dias, só se falava disso no Recife e mais precisamente no Porto Musical, feira de negócios e de conferência de música e tecnologia, que ocorreu entre os dias 17 e 20 deste mês fervilhando a capital pernambucana de idéias.

Entre diversas conferências, algumas com temas mais genéricos e outras mais específicas, o público conheceu visões bastante interessantes acerca do atual e, sobretudo, do passado deste mercado fonográfico. Uma parte expressiva dos debatedores foram personagens ativos que fizeram parte desta convencional indústria musical. Vê-los falando sobre o passado, seus sucessos e suas curiosidades, soava nostálgico, porém imprescindível para tentar entender o que deu errado neste caminho ou tentar ver se é possível repetir fórmulas e exemplos.

Na ala digital do Porto Musical, a maioria dos temas abordados era inevitavelmente sobre modelos de negócios para música. Como construir um mercado e fazer com que este público atual deixe de pegar tudo de graça e passe a valorizar financeiramente os produtores desta arte? Esta é a pergunta que todos se fizeram, mas sem nada que conseguisse ser aplicado a qualquer mercado ou país. De certa forma, a maioria das perguntas e respostas cairam no lugar-comum dos atuais debates sobre música e tecnologia, onde parece que todos perguntam apenas para ter certeza se suas certezas se confirmam.

“Ironicamente, para tentar entender o futuro, o público presente ouviu de um senhor de 77 anos as projeções mais interessantes a respeito deste enigmático mundo moderno”

Reflexões – No entanto, André Midani (foto), um dos nomes mais importantes da indústria fonográfica brasileira, no auge de sua lúcida experiência no mercado, protagonizou o momento mais emocionante de todo o Porto Musical. “Não deixem os tecnocratas dominarem a música”, repetia Midani ao longo de seu discurso. Em pouco mais de uma hora, este senhor de cabelos encaracolados, fala suave e aspecto gentil teceu um panorama bastante interessante a respeito da música de como era antes, muito tempo antes e como chegamos até aqui.

Ironicamente, para tentar entender o futuro, o público presente ouviu de um senhor de 77 anos as projeções mais interessantes a respeito deste enigmático mundo moderno. “Não seria coerente que eu, que já não tenho mais 25 anos, possa falar sobre o futuro, mas vamos tentar”, advertia Midani de maneira sincera enquanto nos lembrava de que o crescimento da população mundial, sobretudo chinesa e muçulmana, pode afetar o consumo da música, em especial pelo modelo falido de copyright.

Uma vez que existem mais de 15 milhões de sites de artistas pelo mundo e que as vendas de música são irrisórias frente ao tráfego de arquivos em mp3 pela Internet, Midani declarou que o ponto crucial desta situação está e esteve na falta de visão da própria indústria fonográfica, que ao longo de seus anos de glória tornou-se preguiçosa e ineficaz para entender o que acontecia ao seu redor.

Uma vez em que o Music Business passou a ser gerenciado pelos tecnocratas e gente com visão administrativa, mas sem competência artística, tudo começou a desandar. Relembrando o fato de que todas as principais decisões tomadas neste curto espaço de 10 anos no mercado fonográfico foram feitas por gente sem esta qualificação criativa, Midani reforçou o ponto de que esta gente não quer artistas e sim as músicas como produto final que adquirem uma “vida útil” cada vez menor. E em meio a disputas entre formatos de mídia gravável e suas fábricas, Midani aponta esta concorrência de interesses econômicos entre lobby de gravadoras x lobby de fabricantes de hardware como uma das principais causas deste atual problema e da própria pirataria física que invade as ruas das cidades.

Ao relembrar o que um dos seus amigos artistas havia lhe escrito em carta certa vez nos anos 80, a frase repetida por André Midani no Teatro Apolo serve como alerta a todos para voltarmos a nos focar no lado criativo e não no lado mercadológico desta coisa toda: “Da música nasceu o mercado. Não podemos deixar que o mercado mate a música”. Ao final de seu discurso e de suas observações, que nesta breve resenha parecem superficiais, tudo isso se mostrou muito mais profundo e relevante para os que se fizeram presentes naquele momento e que souberam aplaudir de pé uma pessoa essencial que pode encorajar mais pessoas de 25 anos a manter a sua paixão pela música.

BRUNO NOGUEIRA (PE) – A CULTURA DA TROCA – PARTE DOIS

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Boa parte das indústrias de consumo de cultura tem suas lógicas de produção com base na cópia. Você precisa ter várias copias de um disco para que o artista seja ouvido, ou várias cópias de um filme para que ele se torne um sucesso. É uma lógica inversa do que acontece, por exemplo, nas artes plásticas onde pode existir apenas um modelo original da obra. E as pessoas vão viajar até aquele gigantesco local de contemplação para vê-la. É inverso, mas não tanto quanto parece. Com pouco tempo filmes de distribuição limitada e discos que só tiveram uma primeira tiragem também se transformaram em objetos cultuado.

Quando a troca de arquivos em redes P2P se popularizou, logo após o surgimento do Napster, outra grande revolução atingiu a indústria do disco de uma forma que ela jamais podia prever. Não é que o acesso a certas obras tenha ficado mais fácil, mas também a cópia – aquele fundamento básico que antes era necessário para que existissem – ficou ilimitada. Antes você só podia gravar tantas vezes um determinado disco quanto você tivesse fitas K7 que você tivesse uma forma de entregar pessoalmente. O que nunca foi muito. Mas não existe limite mensurável para quantas vezes – e quantas pessoas – você pode copiar digitalmente uma música.

Enquanto redes como o AudioGalaxy e E-Mule tentavam expandir a bolha criada pelo Napster, outras empresas conseguiram observar um novo padrão de consumo. A Apple foi a primeira a perceber que espaço se transformava no novo fetiche. Seu primeiro player, o iPod, era feio e grande, mas tinha a premissa de que as pessoas poderiam carregar toda sua coleção de música e acessá-las em três cliques. De certo modo foi esse aparelho que impusionou uma segunda fase na troca de arquivos. Não importa se você tinha 10gb de música (um valor que, até então, era difícil de encontrar em um HD doméstico), elas caberiam todas lá dentro. Continuar lendo

FORA DO EIXO: MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJÚ, A MAIOR BANDA INDEPENDENTE DO BRASIL

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Por Ney Hugo

No último fim de semana aconteceu no centro oeste mais uma edição do Móveis Convida, o festival organizado pelo Móveis Coloniais de Acaju. Pela primeira vez, o evento se tornou itinerante. A partir de um contato com a Monstro Discos, o festival ocorreu também em Goiânia. Na programação, estava o que Fabrício Nobre viria anunciar no palco do Martim Cererê “o combo mais interessante do centro oeste”: Black Drawing Chalks(GO), Galinha Preta(DF), Macaco Bong(MT) e Móveis Coloniais de Acaju(DF).

O Móveis impressiona pelo tamanho. A começar pelo tamanho da banda, são dez integrantes. Mas também pela projeção e eficiência em seus trabalhos. No palco, quem já assistiu pôde comprovar a qualidade absurda do show. Música, cena, presença, carisma impecáveis. Mas existe um outro trabalho do Móveis que passa despercebido por quem só vê a banda. O empreendedorismo dos caras pra chegar no patamar que chegaram.

A banda começou em 98, de forma despretensiosa, assumidamente por diversão. A história de montar uma equipe e se preparar pra um quadro maior se deu em 2003, quando se apresentaram no Brasília Music Festival. Na sequência, gravaram o disco “Idem” com o Rafael Ramos (Deck Disc), mas de maneira completamente independente. “Pagamos pela gravação, prensamos 3 mil cópias, cada um pegou uma caixinha de discos e saímos competindo quem vendia mais”, diverte-se o vocalista André Gonzalez, que completa ainda que existiram muitas dificuldades na época, afinal eram uma banda pouco conhecida, com um nome esquisito e grande e um som esquisito também. Era bem fácil de ninguém acreditar. Resolveram acreditar eles próprios. Continuar lendo

ROCK POTIGUAR: BANDAS VIAJAM NO CARNAVAL – MATÉRIA TRIBUNA DO NORTE

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Pras bandas de lá

http://tribunadonorte.com.br/noticia.php?id=101377

Existem festivais de música na época do carnaval que são o sonho de diversos artistas brasileiros como é o caso do tradicional Rec-Beat no Recife, o Palco do Rock em Salvador e os pólos multiculturais do carnaval de Pernambuco. No Rec-Beat as atrações são variadas e revelam artistas como aconteceu com o “Cordel do Fogo Encantado”, “Eddie”, “Mundo Livre”, entre tantos e traz de volta aos palcos, figuras esquecidas como aconteceu durante a apresentação explosiva da cantora Maria Alcina em 2004. Esses festivais são como pontes diretas de um artista lançado a diferentes olhares de outras partes do mundo.

Esse ano, a Camarones Orquestra Guitarrística já está de malas prontas para apresentação do Rec-Beat amanhã, sábado de carnaval. Para a baixista do grupo Ana Morena, a seleção para o festival foi uma surpresa para todos que já cultivavam o sonho de participar. “O Rec-Beat é uma referência para os músicos. Lá estão artistas importantes de diferentes partes do mundo. O mais arrepiante de lá é essa diversidade. Prova disso é que estaremos tocando na mesma noite do dj Africa Bambaataa dos Estados Unidos e de Dj Dolores de Pernambuco”, contou Ana.

Com 40 minutos de apresentação, eles estarão levando 10 canções autorais e duas versões, sendo uma a reunião de trilhas de diversos filmes. “Quando fizemos os shows pelo interior amadurecemos bastante nosso repertório. Esse tempo foi importante para lapidarmos as nossas canções”, disse.

Além do Rec-Beat, o Camarones estará tocando em Campina Grande no Encontro da Nova Consciência no domingo e encerra essa série de shows com duas apresentações em Natal: a primeira na 3ª Chamada Carnavalesca do Rock e a segunda no Centro Cultural Dosol. O encontro da nova consciência assim como o Rec—Bet tem seus 14 anos. Na nossa noite terá Mombojó e nos outros dias B.Negão e o grupo Cabruêra.

Mais próximo do sertão, na Zona da Mata, o grupo Rosa de Pedra fará apresentação em Pau Dálio na mesma noite que Lenine, no próximo domingo. Para a violinista do grupo Tiquinha Rodrigues essa foi uma das gratas surpresas este ano. “Enviamos material para o carnaval de Pernambuco e sempre foi nosso sonho tocar por lá e fomos selecionadas”, contou.

Elas estarão levando o repertório do disco lançado em 2008 homônimo da banda. Na bagagem, muitos tambores, congas, violino, junto às canções “Brancas Flores”, “Ludo”, “Bola de Chiclete”, entre outras autorais. “Lutamos muito para tocar aqui no carnaval de Natal, mas não fomos selecionadas para nenhum pólo. Ainda bem que tivemos esse convite”, disse a vocalista e compositora Ângela Castro um pouco decepcionada.

AK-47 em Salvador

Outro grupo que cairá na estrada rumo a Salvador é o AK-47. Eles estarão amanhã no Palco do Rock no mesmo dia que Underschool Element (Suiça), que esteve recentemente em Natal. Para o palco eles estarão levando o repertório do EP recentemente lançado pelo selo RP Discos, produzido por Rodrigo Cruz. “É muito importante ser selecionado para um festival nesse porte. Nós que somos um grupo autoral preocupado com as questões sociais do mundo, é uma barreira vencida”, disse o guitarrista Rafael Marques.

Durante o show, eles estarão mostrando canções como “Verme”, “infecção”, “Holocausto”, entre outras. “Nossas letras falam muito sobre o sistema falho do mundo. Nós acreditamos que temos uma função de levar uma reflexão para quem nos ouve”, comentou o baixista Bruno Melo. Suas canções fazem referência a “Alice no País das Maravilhas”e brinca com a idéia da rainha decapitada. “Estamos num sistema que a rainha decapitará todo mundo e termina tendo a própria cabeça como custo”, completou Bruno. A banda Ak 47 é composta, atualmente, por Juão (vocais), Gil Eduardo (guitarra), Rato (guitarra) Renno Mello (contra-baixo) e Julio BBS (bateria).

Mesmo com pouco tempo de formação (dois anos), o grupo já tocou com grandes nomes do rock nacional, como Luxuria (SP), Maldita (RJ), Mukeka Di Rato (ES), Torture Squad (SP), Kohbaia (CE) e participou de festivais importantes, como Festival DoSol.

As Rosas não calam

Depois de serem destaque na revista Rolling Stones durante o festival MADA e lançar o disco homônimo, o grupo Rosa de Pedra se sente triste por não estar na programação do carnaval de Natal. “Enviamos material para a Prefeitura e a resposta que tivemos é que infelizmente a verba foi cortada. A única coisa que eu gostaria de saber, quais foram os critérios para esse corte. Aqui na cidade está ficando cada vez mais difícil conseguir espaço. E vale salientar que os cachês são baixos, muito aquém do que necessita um grupo grande como o nosso”, desabafou Tiquinha Rodrigues.

Eles que estão selecionados no projeto do Sesi e irão passar uma temporada de shows em São Paulo, sentem necessidade de explicação de tantos cortes do grupo nos eventos públicos da cidade. “É realmente um momento estranho esse que estamos vivendo culturalmente na cidade. Como somos selecionados para tocar em Pernambuco, num dos maiores carnavais do Brasil e aqui na nossa cidade não temos nem um cantinho de palco”, reflete a compositora e vocalista Ângela Castro.

Saiba mais

Confira os myspaces dos grupos

http://www.myspace.com/camaronesorquestraguitarristica
www.myspace.com/rosadepedra
http://www.myspace.com/ak47rn
Rec-beat: www.myspace.com/recbeat

BRUNO NOGUEIRA (PE): THE NAME (SP)

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De: Sorocaba
Selo: Tronco
Para quem gosta de: Rapture, Charme Chulo

A primeira grande aparição que a The Name fez para o público de fora de Sorocaba foi em 2007, durante o Goiânia Noise Festival. Naquela época, selecionados por um concurso da Trama Virtual, a banda ainda era bem diferente dessa que lança agora o primeiro EP. Eram uma banda com mais referência no rock inglês da década de 80, empurrando sotaque brasileiro no grave de uma voz que, por pouco, não seria a do Ian Curtis.

Mas a apresentação em Goiânia funciona como um divisor de águas na história do trio. Quem assistiu aquela apresentação foi o, recém retornado ao Brasil, produtor Eduardo Ramos. Nos vai e vens de declarações na imprensa durante o caso do Cansei de Ser Sexy, o agora ex-empresário da Slag Records dizia que continuaria com a vontade de produzir uma banda. E ele direcionou essa vontade para a The Name.

“Assonance”, a real estréia deles para o mundo independente, é um EP intrigante. A The Name quer conquistar os palcos tanto quanto as pistas de dança. As batidas eletrônicas mais aceleradas só não causam mais impacto na primeira audição que a voz, agora assustadoramente aguda. O electro-indie-rock vem embalado em ritmos brasileiros, com ecos do swing latino que é tão associado a esse lado do hemisfério.

A iniciativa ousada faz dessa um tipo de banda quase rara no Brasil. O sotaque do interior paulista está lá, só que agora soa muito mais modernoso que a própria maior metrópole do país. Curiosamente, igual como aconteceu com a também sorocabana Wry. A The Name canta em inglês sobre celebração. É exatamente o que deveria ter acontecido com a música do Bonde do Rolê e do CSS no segundo disco. Uma penetração no rock lá de fora, mas com jeitinho de brasileiro.

Desnecessário dizer o quanto isso faz deles uma banda valiosa para o mercado lá de fora. Quando não estão criando essa catarse de repetição entre batidas e riffs de guitarra, a The Name mostra seu potencial para crescer com integrantes que tem a banda como prioridade e um pé no freio do deslumbre. A entrevista baixo foi respondida pelos três, Andy, Molinare e Alves:

Primeiro as amenidades. O que é que vocês escutam por ai?
Cara, a gente sempre tenta acompanhar essa leva de bandas fodas que aparecem por aí. Tem muita banda independente fazendo um trabalho extremamente foda, como o Holger, Macaco Bong, Homiepie, Stephanie Toth e outros. Por outro lado, temos uma influência post-punk muito forte e acabamos ouvindo muito essa onda também.

A música de vocês no Noise era bem diferente, mais oitentista, do que está no álbum. Já dá para dizer que essa é a cara definitiva da The Name ou essa é uma banda que ainda vai mudar mais?
“ASSONANCE” foi o primeiro passo pra uma identidade que nem a gente sabe onde vai parar; a gente só sabe que vai parar nas “pistas” de alguma maneira. Toda a banda tem que mostrar diferentes evoluções em cada trabalho, esse é o sentido pra gente de fazer um novo EP.

Tem alguma coisa que me é intrigante no som de vocês, de uma forma que ainda acho difícil descrever. Existe um elemento forte de brasilidade (ou latinidade?) misturado com um indie rock mais modernoso. É viagem minha? Como nasceram essas músicas de vocês?

Não é viagem não, Bruno. Desde o single “Older”, já estávamos incorporando o lance de percussão eletrônica. Mas pô, a gente tá no Brasil e não tem coisa mais gingada do que um ritmo latino. Não deixamos as tecnologia de lado – os samples e as percussões continuam vindo de um laptop e uma bateria eletronica – mas agora são percussões latinas. O fato da gente estar ouvindo muito mais o post punk e o não-wave, acabam reforçando esses elementos.

Onde vocês pretendem chegar com essa banda? Me parece que o espaço para esse tipo de música, mesmo com o circuitão dos festivais, ainda é bem pequeno. Vocês querem fazer turnê fora?
Queremos simplesmente pagar nossas contas com o que a gente curte; tocar aqui ou lá fora faz parte do mesmo ideal. A gente não conhece muita banda com o estilo que a gente tá fazendo hoje em dia, aqui no Brasil. Mas existe o Charme Chulo que faz um post-punk-caipira e tem um puta público. Isso prova que o espaço não é pequeno e sim que existem poucas bandas de um mesmo gênero.

Perguntei isso porque Sorocaba é casa do nosso primeiro produto de exportação indie, o Wry. Como é a cena ai na cidade de vocês? Tem mais bandas desse estilo? O que mais deviamos estar ouvindo que vem dai?
O Wry foi uma das primeiras bandas à meter a cara lá fora. Isso é fudido pra gente que é sorocabano. A cidade tem muita coisa boa, mas antes de todas elas, Sorocaba foi terra de uma das bandas mais originais do final dos anos 80 – Vzyadoq Moe. É uma das nossas grandes influências de som. Vale a pena conhecer. Eles foram uma das pioneiras à misturar o post-punk com ritmos brasileiros, como o SAMBA e a MACUMBA (que influenciou grandes bandas dos anos 90). Com toda a certeza, uma das fontes onde o mangue-beat bebeu. É uma banda Sorocabana que devia voltar.

De volta as pretensões… apesar do pouco tempo, a The Name já tem uma boa idéia de como é o mercado independente. Vocês tocaram em pelo menos um grande festival fora, além de terem feito o circuito de shows no interior de São Paulo. O que vocês acharam de tudo? O que acham que está faltando?
Tudo o que aconteceu e vem acontecendo, é fruto de muitos anos de trabalho. A The Name é nova, mas nós três já tocamos juntos há 12 anos. Tocamos nesses festivais (Goiânia Noise, Demosul e duas vezes consecutivas no Araraquara Rock) e participamos com o Macaco Bong nesse projeto da Tronco que é fudido, o “Desbravando o Interior”. Podemos dizer que tem muito o que desbravar ainda.

Há alguns poucos profissionais que trabalham (muito) por isso fazendo com que o circuito esteja sendo formado; um mercado independente auto-suatentável. Como qualquer setor, falta o profissionalismo dos envolvidos, sejam bares e/ou uma divulgação decente. Aconteceu de tocarmos em bares que não havia nenhum pôster e/ou flyer falando do show. Em compensação, uma parede cheia de “KISS COVER” estampado. Essa é a realidade, tem pouca gente que se ‘arrisca’ ao independente. A gente está descobrindo isso aqui na cidade mesmo, onde já trouxemos muitas bandas e pagamos, do bolso o mínimo de divulgação. Isso vai mudar quando enxergarem que há público e há como sobreviver coletivamente no mercado indepentente.

Escute a The Name no MySpace
Veja fotos da banda no Flickr

BAIXE : THE NAME – ASSONANCE