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BRUNO NOGUEIRA (PE): PERIFERIA CONECTADA

LANBAHIA

A palavra “sucesso” se tornou um dos verbetes mais complexos do vocabulário da indústria do entretenimento nos últimos 20 anos. Sem os parâmetros tradicionais que antes elencavam um artista, cada um encontrou maneiras diferentes de eleger – além da estética da própria música, claro – quem está ou não em destaque. Uma das saídas mais honestas parece ter sido a da mídia tradicional de dar mais atenção ao próprio público e onde eles estão clicando na internet em buscas de novidades. “Parece”, porque em termos concretos, a mídia parece estar sempre atenta ao público errado.

Um dos melhores exemplos é o da cantora paulista Mallu Magalhães, que sempre aparece nas matérias de revistas precedida de “fenômeno da internet” por ter conseguido somar 1 milhão de visitas em sua página no MySpace em nove meses. Nada mal, de fato, mas pouco se considerado que bandas como a baiana Parangolé ou a dupla MC Bill e Bolinho conseguem duas vezes mais acessos em menos da metade desse tempo. Ao contrário do retrato feito em matérias, a periferia é muito mais conectada que o centro.

Diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, o professor Ronaldo Lemos sempre pontua suas idéias sobre o assunto com o dado de que “as classes A, B e C são apenas 15% da população no Brasil”. Segundo ele, que é co-autor do livro Tecnobrega – O Pará Reinventando o Negócio da Música. “Quando vemos um YouTube e Redes P2P sendo usadas por artistas da classe A e B, vemos inovação; mas quando a gente vê a periferia usando essas ferramentas, pensamos pirataria, mal gosto e uma série de defeitos”, diz.

Ronaldo Lemos é um dos responsáveis pelo “Projeto Lan-House”, que a FGV está desenvolvendo em Salvador e outras capitais do país. ”Nosso projeto é ajudar os donos desses espaços a dialogar com um mercado formal, para evitar pressões de grupos como polícia, bombeiros, etc”, explica o professor. Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil, cerca de 68% dos acessos a internet no Norte e Nordeste do país em 2008 partiram de lan-houses. É lá que artistas como o Parangolé, Pagodart e Desejo de Menina são acessados diariamente por pessoas que nem necessariamente usam computador.

É o caso da empregada doméstica Maria das Graças Galvão, de 41 anos de idade. Ela não tem, nem nunca usou um computador, nem sabe como as coisas funcionam na internet. Mas ela, que mora na Boa Vista do Lobato, comprou um player MP3 simples por R$ 120. “Parcelei em 12 vezes”, conta, sem esconder o riso de quem acha a situação engraçada. Graça, como é chamada pelas amigas, visita uma lan-house pelo menos duas vezes por mês para recarregar o aparelho com músicas. “Eu só digo a eles que quero mais românticas ou então dançante, não escolho as bandas”, conta. No entanto, ela não se faz de vítima “eu escuto antes de pagar, se não gostar, falo para trocar tudo”.

O dono da lan-house onde Graça recarregava as músicas cobra R$ 20 pelo serviço e tem medo que, se identificar seu negócio em um jornal, possa ter que fechar o lugar. “Eu gravo música até para amigos que são policiais, eu sei que não são eles que vão fazer isso, mas se sair em um jornal assim, o pessoal vai querer arranjar problema”, se defende. Quando perguntado quem seriam as pessoas, ele não responde as gravadoras, mas “os artistas, né?”. Segundo ele, a principal fonte para o download de música está no orkut.

Mas, ao contrário do que pensa, os artistas não se incomodam com a divulgação espontânea. Diferente de artistas de gravadoras, que tem um departamento inteiro para pensar em ações na internet, a divulgação de bandas como Calypso e Parangolé partem quase que totalmente dos fãs. “Se eu faço um show de tarde, chego em casa de noite e já tem tudo no YouTube”, diz Léo Santanna, vocalista do Parangolé. “A gente não pede, nem fala nada em relação a isso, é uma coisa dos fãs mesmo”, conta ele que é fanático confesso em ficar conectado na rede.

Os números do Parangolé são bem impressionantes. Eles tem cerca de 750 comunidades, algumas com mais de 60 mil usuários. Todas criadas, mantidas e movimentadas pelos fãs. “Tem até perfil falso meu, que as pessoas criam tentando enganar os outros”, conta o músico que assinou contrato com a gravadora Universal em julho, graças a essa movimentação toda. Segundo Ronaldo Lemos, “os artistas mais populares do Brasil hoje são lançados nessas redes que não dependem mais da mídia tradicional”.

A periferia conectada não está nas redes sociais da moda, como o MySpace ou Facebook. Uma pesquisa que a Fundação Getúlio Vargas nas lan-houses mostrou que o público usa mais o Orkut e o site Flogão. “Essa diferença no uso dos espaços não vem nem da internet, mas de um sentimento de pertencimento, de querer agregar a pessoas que são parecidas com você. Além do fato dos sites serem em inglês contribuírem para isso. Parece que não faz diferença nas classes A e B, mas na prática faz muita diferença sim”, explica Ronaldo Lemos.

A comunicação multilateral das redes sociais não é o único espaço onde estão essas músicas. No caso do pagode baiano, por exemplo, existem sites como o “Júnnior do Cavaco”. Foi criado a cinco anos, quando seu fundador que dá nome ao espaço se mudou para São Paulo e não queria ficar distante da música que gosta na Bahia. Hoje, tem uma equipe de quatro pessoas e lá está o acervo disponível para download de praticamente todo o novo pagode baiano. “A internet está ai para todos”, comenta Edy Bateya, diretor de mídia do site, “somos acessados em lan-houses, no trabalho, isso facilitou demais o trabalho”.

Questão de gosto | Um dos maiores alarmistas da nova sociedade em rede, o autor londrino Andrew Keen, não vê essas transformações com otimismo. Em seu livro “O Culto do Amador”, ele afirma que sites como o Orkut e YouTube nivelam a produção cultural por baixo, criticando que a música apresentada lá em nada se assemelha com uma suposta qualidade que seria garantida pelas gravadoras. Ele defende a posição dos editores, que fazem a triagem e modelam o que deve ou não ser apresentado ao público, em favor das pessoas publicarem livremente qualquer música na internet.

“A visão dele é bastante simplista”, comenta Ronaldo Lemos, que também representa no Brasil a organização não-governamental Creative Commons, que procura criar maneiras para artistas licenciarem suas obras sem precisar passar pelas gravadoras. “A questão da qualidade, antes, com a mídia tradicional, fazia algum sentido. A mídia fazia o papel de árbitro do gosto, mas isso não existe mais hoje”, defende. Segundo o professor, que também era curador do Tim Festival, a qualidade hoje é reflexiva e precisa ser analisada a partir do contexto social em que se pertence.

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