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BRUNO NOGUEIRA (PE) – A CULTURA DA TROCA – PARTE DOIS

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Boa parte das indústrias de consumo de cultura tem suas lógicas de produção com base na cópia. Você precisa ter várias copias de um disco para que o artista seja ouvido, ou várias cópias de um filme para que ele se torne um sucesso. É uma lógica inversa do que acontece, por exemplo, nas artes plásticas onde pode existir apenas um modelo original da obra. E as pessoas vão viajar até aquele gigantesco local de contemplação para vê-la. É inverso, mas não tanto quanto parece. Com pouco tempo filmes de distribuição limitada e discos que só tiveram uma primeira tiragem também se transformaram em objetos cultuado.

Quando a troca de arquivos em redes P2P se popularizou, logo após o surgimento do Napster, outra grande revolução atingiu a indústria do disco de uma forma que ela jamais podia prever. Não é que o acesso a certas obras tenha ficado mais fácil, mas também a cópia – aquele fundamento básico que antes era necessário para que existissem – ficou ilimitada. Antes você só podia gravar tantas vezes um determinado disco quanto você tivesse fitas K7 que você tivesse uma forma de entregar pessoalmente. O que nunca foi muito. Mas não existe limite mensurável para quantas vezes – e quantas pessoas – você pode copiar digitalmente uma música.

Enquanto redes como o AudioGalaxy e E-Mule tentavam expandir a bolha criada pelo Napster, outras empresas conseguiram observar um novo padrão de consumo. A Apple foi a primeira a perceber que espaço se transformava no novo fetiche. Seu primeiro player, o iPod, era feio e grande, mas tinha a premissa de que as pessoas poderiam carregar toda sua coleção de música e acessá-las em três cliques. De certo modo foi esse aparelho que impusionou uma segunda fase na troca de arquivos. Não importa se você tinha 10gb de música (um valor que, até então, era difícil de encontrar em um HD doméstico), elas caberiam todas lá dentro.

Hoje, esse fetiche pelo armazenamento está perto de chegar aos 200gb, por mais sensato que seja afirmar que uma pessoa normal não escuta (ou sequer conhece) 200gb de música. Mas com esses valores, veio o primeiro grande baque nas gravadoras. Se eu tenho um disco de seu artista, eu posso compartilhar ele com quantas pessoas eu quiser – sem limites – e essas pessoas vão ter espaço para receber essas músicas até duas ou três vezes se quiserem. A primeira tentativa de impedir isso foi construida exatamente com base nessa lógica. O DRM (Digital Rights Management) só permitia que cada arquivo fosse copiado três vezes. E nem precisou recorrer a pirataria para constatar porque isso jamais daria certo: em uma família com cinco pessoas (e cinco MP3 players), dois vão ficar sem ouvir aquela música, mesmo tendo pago pelo disco.

Para quem estava compartilhando parecia simples entender que o mote era “eu gosto tanto dessa música que quero que várias pessoas a escutem e gostem dela”. Mas, para as gravadoras, o raciocínio era o de “vou roubar, prejudicar e acabar com você”. E após o DRM vieram as primeiras tentativas de acabar com os fãs das bandas, processando, prendendo e multando um por um, como se tal tarefa fosse possível. Até hoje grupos como o Metallica ainda sentem a perda que tiveram ao serem os primeiros a processar o Napster por promover a troca de arquivos.

Todo esse desespero impediu que bandas e gravadoras percebessem a chave para compreender todo o processo desencadeado pelo Napster. Os fãs também estavam tendo um prejuizo próprio. Afinal de contas, ele pagou por aquele disco. Mas, mesmo assim, decidiu distribuir gratuitamente com estranhos algo que custou dinheiro. Prática que já era bastante comum na internet bem antes, quando técnicos de informática começaram a tirar dúvidas ao invés de ganhar clientes, apenas para citar um exemplo. O conceito de “bem imaterial” estava em expansão.

Mas esse assunto é para a próxima semana, quando tem mais texto dessa série. Quem perdeu o primeiro, ainda dá tempo de acompanhar seguindo esse link.

1 Comment

  1. Bruno, excelente texto. Flui bem e explica direitinho o nó que a era digital dá na lógica das vendedoras de mídia que acham que vendem música (como disse o João Marcelo Boscoli outro dia, em entrevista para o GloboNews que saiu no G1 tb).

    Cheguei aqui por indicação do Beto Mejia, flautista e backing vocal da banda Móveis Coloniais de Acaju. Vou manter o site na lista de visitas.

    Hiperabraços.

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