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BANANADA 2018, COMO FOI?

Por Anderson Foca

É muito intrigante escrever sobre o Festival Bananada 2018 que acabou de encerrar sua vigésima edição lá em Goiânia/GO. Intrigante porque conheço bem de perto a realidade financeira do festival e o esforço “hercúleo” da sua diretoria pra que todos os anos a atividade ganhe a rua. Fico pensando nos meus amigos, na sua saúde, no tamanho do esforço físico e mental que é colocar um gigante desse para andar num país que valoriza muito pouco ações culturais desse porte. Fica por aí a parte “ruim” de tudo isso.

Hoje, nenhum evento de música no Brasil é capaz de gerar tantos encontros como o Bananada. A posição geopolítica de Goiânia ajuda nisso. Do lado de Brasília, maior hub aéreo do país, 10 horas de carro de São Paulo, etc. Coisas assim até explicam a logística. Mas o que realmente reuni amantes de música e agentes culturais de todo o país em volta do Bananada é seu ENORME LINEUP com poder de síntese do que de melhor está acontecendo na música brasileira no momento. Chega a ser esquizofrênico os encontros, perceber que no mesmo universo estão convivendo gente da esquerda combativa com Pablo Capilé (Fora do Eixo e Mídia Ninja) e da direita governista como o o Zé Flávio Jr. (jornalista a serviço do MINC). No público as mesmas características, uma cidade enraizada no agronegócio com aquele fogo conservador se misturando com elevados níveis de contemporaneidade e humanismo vindo do discurso, letras e riffs da grande maioria dos grupos que se apresentou no festival.

A arena bonita e festiva, uma espécie de oasis cultura emaranhada e levantada no meio de um shopping desses bem chiques também me leva a essa reflexão. Fui apresentado ao proprietário do Passeio das Águas e não deu para evitar a leitura quando o vi no meio do show do Atooxxa tentando se mexer no meio do loop pagode/eletrônica que o grupo oferece. Ele, possivelmente um empresário ligado aos interesses “liberais” do Brasil 2018, no meio daquele mar de contra-informação. Claro que o shopping tem interesses comerciais como um monstro como o Bananada sediado lá, mas eu duvido que ele tenha passado impune ao presenciar a cultura direta e reta derramada nos corredores do seu empreendimento. É exatamente para isso que festivais de músicas existem no mundo todo. Transformam para muito melhor nossa visão de mundo e de sociedade.

E por falar em existir, também me peguei pensando. Qual é o preço da posteridade? Pra que viver uma vida para posteridade? Estive reflexivo sobre isso o tempo inteiro enquanto estava no Bananada. Posteridade é ser lembrado quando você não estiver mais aqui, é ser celebrado anos depois de virarmos pó. É ser como o saudoso Miranda, ovacionado por diversas vezes nessa edição e será em todas as outras enquanto o Bananada existir. Sobre a dificuldade financeira do festival e minha preocupação com a saúde dos amigos lá no começo do texto, a única coisa que realmente me acalenta é saber que gente como Fabrício, Dai, Manga já estão para posteridade. Serão lembrados por anos a fio dentro da sua cidade, gerações inteiras celebrarão os tempos de Bananada. Para nossa sorte esse tempo é agora, vivos para ver e sentir esses momentos. De novo para ficar bem claro: para nossa sorte o tempo do Bananada é agora.

E por falar em existir, o Bananada precisa muito existir. Eu agradeço em nome do público e dos músicos (fui os dois nessa edição) a gente como Red Bull, Natura, Colombina, Spotify, Sympla, Chilli Beans e outros patrocinadores/apoiadores dessa edição, que entendem a importância de eventos como esse ficarem de pé.

Voltei radiante e impactado. Homeopatia das melhores para alma e pro coração. Remédio sem contra-indicação que a gente precisa de tempos em tempos.

Obrigado aos envolvidos por isso.

 

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