Editorial

ARTIGO: POLÍTICA PÚBLICA DE EDITAIS OU GANHANDO E NÃO RECEBENDO


Calistoga em ação no Festival Dosol Pium. Evento foi contemplado, realizado e não pago pelo Ministério da Cultura

POLÍTICA PÚBLICA DE EDITAIS OU GANHANDO E NÃO RECEBENDO
por Anderson Foca

No momento em que damos início a mais uma série de empreitadas inéditas no pantanoso terreno da cultura, aproveitamos para fazer uma reflexão sobre o as atividades do poder público na área pegando como destaque os editais. O texto vai servir para desmistificar certas lendas e jogar luz sobre como andam as coisas em terras potiguares. De certo modo também serve de resumo desses seis meses de 2012 para o Dosol.

A primeira lenda a cair é bem clara: produtores vivem de produzir e não de projetos. São duas coisas bem diferentes e que devem separar bem os que estão comprometidos com cultura dos que querem se aproveitar desta atividade “maior” (e dos seus parcos financiamentos). Toda vez que se fala de editais vem a tona sempre aquela lenda de que projetos culturais não são sustentáveis, que o poder público não deve investir em “artistas desocupados que só querem mamar”, entre outros mimimis bem característicos da era “haters”.

Essas lendas são causadas por três motivos: preguiça de quem acusa, artistas e produtores sanguessugas e falta de entendimento de quem está a frente dos tais editais. Qualquer produtor cultural ou artistas mais engajado sabe detectar rapidamente os tais produtores aproveitadores e os não menos asquerosos artistas “do palco público” (aquele que só se apresenta se o governo pagar, normalmente com cachês muito acima do valor de mercado). Bastam cinco minutos de prosa e isso se resolve, mas os governos não tem a menor capacidade de enxergar coisas óbvias, e o pior, muitas vezes enxergam e são coniventes.

Dito isso e colocando o Dosol na categoria dos produtores que produzem (basta bater o olho rápido em qualquer atividade nossa para detectar de que lado estamos) vamos debater o nosso relacionamento com os editais públicos. Tivemos o cuidado de relacionar todas as atividades que fizemos nos primeiros seis meses do ano de 2012. Foram mais de 200 shows realizados, quase meia centena de vídeos autorais, organização e gestão de cinco tours de artistas independentes, tocamos com nossos artistas mais de 100 vezes, nosso centro cultural abriu as portas praticamente todas as semanas do ano, gravamos e lançamos 03 novos artistas (com mais cinco chegando nos próximos dias), promovemos eventos gratuitos e por aí vai.

Somando tudo o que fizemos em valores unitários são quase 500 atividades culturais catalogadas e sabe quantas delas tiveram apoio do algum edital público? Uma: a Chamada Carnavalesca do Rock na terça feira de carnaval.

Isso faz a gente refletir o nosso histórico com os editais do poder público, aqueles que ganhamos, realizamos a atividade e NÃO RECEBEMOS. A primeira vez que isso aconteceu foi no ano de 2010. Fomos premiados junto com o Ponto de Cultura de Pium com o Prêmio Aretê, projeto que levaria gratuitamente o Festival Dosol à comunidade da cidade. O Ministério da Cultura nos contactou, exigiu uma série de documentos, enviamos tudo gastando com Sedex, agendaram o pagamento e nós, confiando na seriedade da instituição, realizamos a atividade que foi um sucesso de público e crítica levantando um circo em Pium com 12 artistas locais, nacionais e internacionais àquele palco. Tudo de graça.

No final de 2011, quase dois anos após sermos aprovados no tal edital do MINC, recebemos um comunicado dizendo que o edital tinha sido cancelado e que não receberíamos o que foi acordado. Não nos arrependemos nem um minuto de ter feito aqueles shows para comunidade de Pium, mas nosso caixa contabilizou um prejuízo de R$25.000,00 por total descompromisso do poder público.

Aí veio o edital da Prefeitura do Natal. O tal Fundo de Cultura, aclamado pelos seus idealizadores como a “salvação da lavoura” da cultura do município. Orçamento pífio de R$400.000,00 para TODAS AS ÁREAS DA CULTURA DE NATAL. Novamente nos inscrevemos em várias áreas do edital e fomos contemplados com dois projetos: uma série de filmes sobre a música do RN e o Pensando Música, uma série de palestras e atividades que vão discutir o futuro da música no município. Nada que já não tenhamos feito antes com verba direta, mas se existe o fundo e nossas produções já existem, porque não enquadra-las para tentarmos amenizar os custos e aumentar a visibilidade das atividades? De novo acreditamos na palavra do poder público e de novo FOMOS ENGANADOS. Até hoje o fundo de cultura não pagou os projetos vitoriosos e pelo jeito nem vai pagar. Resumindo o caso: não ajudam e ainda atrapalham!

Mas como nós somos produtores e nossa missão é PRODUZIR, começamos hoje, mesmo com a falta de pagamento da prefeitura, a produzir o DOSOL.DOC, uma série de cinco filmes que vão mostrar o atual momento da música no RN. Para esse ano também já estamos na fase final de organização para abertura do Centro Cultural Dosol Mossoró (todo com verba direta), além de manter nosso calendário atual que engloba o Festival Dosol, Circuito Cultural Ribeira, entre outras atividades. Chegamos ao meio do ano fazendo as coisas acontecerem, não é fácil, tem que remar contra a maré. O caminho é cansativo, prazeroso e nos orgulha. A cultura pelo viés do poder público não vai bem, mas aqui no mundo real estamos vivos e ativos!

1 Comment

  1. Caralho!

    Às vezes o pessoal que ocupa cargos públicos, ligados à arte/cultura, são TAPADOS; e, às vezes, mal intencionados; e às vezes é tudo isso junto, e sobre a arte e a cultura (principalmente a chamada “independente”) pouco estão ligando. Descaso e falta de seriedade.

    Uma pena.

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